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Eugénio de Andrade
Criado segunda-feira, 13 de Junho de 2005
Última actualização terça-feira, 14 de Junho de 2005
 
Inácio Rosa/Lusa
Eugénio de Andrade escreveu aos 25 anos um dos livros fundadores da poesia portuguesa contemporânea

Eugénio de Andrade
Poeta de um obstinado rigor
Por Luís Miguel Queirós
14.06.2005
No prato da balança um verso basta para pesar no outro a minha vida.
Ofício de Paciência, 1994

(...) a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
O Sal da Língua, 1995
 

Numa entrevista que Eugénio de Andrade deu ao PÚBLICO em 1990, há uma frase que o define bem, quer como pessoa, quer como poeta, se é que esta divisão faz algum sentido: "Uma leviandade é uma coisa de que não sou capaz". Quem o conheceu bem, sabe que a mediocridade o exasperava a ponto de poder tornar-se duro, mas até essa ocasional impiedade era o seu modo de não ser leviano. E não foi mais implacável com ninguém do que o foi consigo próprio. Perseguia os seus poemas, de edição em edição, rasurando uma palavra desnecessária, suprimindo uma vírgula espúria, corrigindo uma cacofonia de que poucos leitores se aperceberiam.
No final do ano 2000, quando reuniu toda a sua obra no volume Poesia, ainda conseguiu dispensar quatro poemas de Obscuro Domínio, um dos seus livros mais justamente apreciados. E lamentava-se de não ter conseguido libertar-se do célebre Adeus, que encerra o livro Os Amantes Sem Dinheiro e que começa com o verso: "Já gastámos as palavras pela rua, meu amor". O que lhe deteve a mão foi apenas a consciência de que o gesto seria irrelevante, uma vez que o poema anda há décadas pelas antologias e manuais escolares, e até já foi musicado. Para usar as suas palavras, "como é que se deita fora o que já pertence aos outros?".
E, de facto, os seus poemas "pertencem" hoje a tanta gente, tornaram-se sinónimo da própria poesia para tanto adolescente enamorado ou jovem aspirante a poeta, ecoam em tantos sucessores menores, que se foi como que criando a sensação difusa de que Eugénio seria apenas o intérprete maior de uma espécie de voz colectiva com data de nascimento incerta. Seria preciso voltar a ler toda a poesia portuguesa da primeira metade do século XX, por ordem de publicação, para se ter a noção exacta da singularidade - que nunca equivale a não se ter influências - do poeta que, em 1948, se revelava em As Mãos e os Frutos, mesmo tendo em conta que a primeira versão do livro era substancialmente diferente da que resultou das sucessivas rasuras e reescritas que o autor lhe foi posteriormente impondo.
Talvez por ser tão óbvio, não é fácil definir o que Eugénio trouxe de efectivamente novo à poesia portuguesa. Dos que mais cedo perceberam que As Mãos e os Frutos assinalavam o nascimento de um grande poeta português - Vitorino Nemésio e Jorge de Sena, Óscar Lopes ou Eduardo Lourenço -, talvez tenha sido este último, num ensaio datado de 1961 e intitulado Paraíso Sem Mediação, quem esteve mais perto de conseguir dizer o que esta poesia é. Há poetas de cuja obra é difícil falar pela sua complexidade, pelos seus diversos níveis de leitura, pela sua rede de alusões e envios, pela obscuridade dos seus referentes. Poetas que criam nos leitores a ansiedade de que alguma coisa de essencial para a plena compreensão do poema (seja lá isso o que for) possa estar a passar-lhes ao lado. Da poesia de Eugénio é difícil falar por razões simetricamente opostas. Eduardo Prado Coelho disse-o de forma lapidar: "Em Eugénio de Andrade, o poema é, na sua admirável transparência, de uma opacidade total: ele não permite que se veja através dele, porque continuamente nos reafirma que tudo está nele".
Recordando que, em poesia, as mais profundas alterações tendem a traduzir-se na forma, e menos no conteúdo, Eduardo Lourenço assinala o modo como Eugénio foi lentamente ascendendo "a uma música só sua, quase abstracta, quase só harmonia". Essa música, ou essa "espécie de música", como lhe chamou Óscar Lopes, onde se pressente Pessanha, com a sua aguda percepção do sentido do som, é talvez a face mais visível desta poesia. No entanto, os primeiros livros de Eugénio trazem também uma profunda originalidade ao nível do conteúdo: a entrada em cena, na poesia portuguesa, de uma personagem que raramente a tinha frequentado de modo tão despudorado: um corpo feliz, um corpo grato não apenas a tudo o que pode ver (como Caeiro), e também tocar, mas sobretudo grato a si próprio; um corpo que por vezes reconhece a inevitabilidade de projectar uma sombra, mas inteiramente liberto da corrupção da culpa. Num estudo recente, Alfredo Margarido afirma: "Eugénio é um dos raros - penso às vezes ser ele o único da sua espécie - poeta pagão".
O corpo foi sempre o centro da sua poesia. E se, nos últimos anos, se foi acentuando nestes poemas uma dimensão trágica, uma consciência mais pungente da passagem do tempo, isso deve-se ao facto de o corpo dos seus poemas ter ido acompanhando o envelhecimento do seu corpo físico. Mas Eugénio, e também nisso se afasta do veio dominante da lírica portuguesa, nunca cede ao melodrama ou ao sentimentalismo. Há na sua poesia, e houve também nele próprio, uma espécie de bárbara altivez que lhe proíbe a indignidade do queixume. Num notável poema dedicado à mão que, durante tantos anos, escreveu os seus versos, só exprime um voto: "A exigência,/ o rigor, acabaram por fatigá-la./ O fim não pode tardar: oxalá/ tenha em conta a sua nobreza".
O melhor depois dos 60 anos
Agora que morreu, Eugénio, como todos os poetas, corre o risco - ou correm-no os seus leitores - de a sua obra tender a reduzir-se progressivamente a essa dúzia ou dúzia e meia de poemas que correm em todas as antologias e a que ficou a dever o seu precoce prestígio: As Palavras Interditas, que aqui transcrevemos, a Litania, o Poema à Mãe e, entre outros, esse Adeus que se sentiu tão tentado a suprimir. Mais ainda do que noutros casos, seria lamentável que assim acontecesse, porque a verdade é que muitos dos seus melhores poemas foram escritos depois dos 60 anos.
Essa é outra característica pouco habitual da sua obra: não é fácil detectar-lhe períodos altos e fases menos inspiradas. É até possível que a sua fidelidade temática e lexical, e a persistência dessa música peculiar de que falam Eduardo Lourenço e Óscar Lopes, encubram um poeta um pouco mais desigual do que hoje nos parece ser. Mas não há livro, desde As Mãos e os Frutos - e poderíamos recuar a Adolescente (1942), com a sua belíssima Canção - até Os Sulcos da Sede (2001), onde não se encontrem poemas merecedores de uma efectiva posteridade.
Ele próprio tinha uma predilecção pelo livro Branco no Branco (1984), embora afirmasse que lhe era mais fácil indicar aquele de que gostava menos: As Palavras Interditas (1951), do qual dizia "salvar" apenas alguns poemas, entre os quais o que deu título ao volume. É sintomático este juízo, já que se trata de um livro de poemas relativamente longos, para os hábitos de Eugénio, com um tom bastante confessional, e aqui e ali, cedendo a imagens um pouco mais convencionais.
Todos os volumes que se seguiram a As Mãos e os Frutos incluem grandes poemas - pense-se, por exemplo, na Litania, de Até Amanhã (1956) -, mas é possível que o poeta só tenha voltado a mostrar-se à altura desse livro inaugural em Ostinato Rigore e Obscuro Domínio, publicados, respectivamente, em 1964 e 1971. Ainda nos anos 70, publica um surpreendente primeiro conjunto de poemas em prosa, Memórias Doutro Rio. O segundo, de 1987, é Vertentes do Olhar, que inclui um dos mais espantosos textos da literatura portuguesa contemporânea, As Mães, escolhido, entre todos os poemas que escreveu, para o representar na antologia Rosa do Mundo. Essa é outra dimensão que poderá tender a passar despercebida: quer nos seus poemas em prosa, quer em muitos outros textos, Eugénio foi um magnífico prosador.
E, como poeta, os 15 anos que medeiam entre Matéria Solar (1980) e Os Lugares do Lume (1998) representam não apenas um período de produção razoavelmente intensa, mas abarcam também alguns dos mais conseguidos livros de Eugénio de Andrade, como Branco no Branco (1984), Rente ao Dizer (1992) ou Ofício de Paciência (1994).
A sua obra mais recente foi também marcada pela discreta tentativa de experimentar novos caminhos, testemunhada, por exemplo, pela maior frequência de alusões directas a pessoas, tratadas pelos seus nomes próprios, ou pelas referências a acontecimentos da actualidade, como a guerra do Kosovo. Até o PÚBLICO, mais precisamente a sua edição de domingo, teve a honra de figurar num dos seus poemas. Esta contaminação directa do quotidiano quase não existe nos seus livros mais antigos, se exceptuarmos alguns dos poemas que reuniu nessa espécie de obra aberta, agora finalmente fechada, intitulada Homenagens e Outros Epitáfios.
No entanto, o que é surpreendente é que mesmo os livros onde vai mais longe nestas e noutras inovações, incluem sempre um punhado de poemas que quase (e frise-se o quase) poderiam pertencer às suas primeiras obras.
E através de todos os seus poemas, para lá da persistência do que podemos chamar o seu estilo, existe uma outra fidelidade não menos essencial a uma visão solar e profundamente ética da vida. Para Eugénio, o modelo do humano, mais ainda do que o grande criador, é "um rapaz/ desses do Pasolini esplendidamente/ nu, plantado na terra", descrito num poema de O Sal da Língua, que encerra com estes versos: "O futuro/ talvez venha a ter gente assim/ feita da substância/ da luz; o vagaroso futuro;/ o presente não, não tem."

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AUXILIAR
O velho poeta, por Jorge de Sousa Braga
O seu desejo era que plantassem
um espinheiro numa nesga de

terra frente ao mar e ao rio
e que ele florisse nem

que fosse uma única vez
Esse espinheiro protegê-lo-ia

mais do frio que um edredão
A nesga de terra continua lá

e o mar e o rio e a manhã
Só o espinheiro e o poeta

é que não
Carta a Eugénio de Andrade, por Luis Cernuda
Tres Cruces,11
Coyacán
México, D. F.
México
Março 3, 1959
Desde há dias que queria escrever-lhe e agradecer-lhe o seu livro "Coração do Dia"; mas não tinha nem tenho a certeza que a sua direcção mudou, pois no envelope onde vinha o seu livro aparece como Rua Coelho Neto, nº 40 B, 1º. Seja como for, vou enviar esta carta para essa direcção.
O sal da terra, por José Tolentino Mendonça
Desconfia daqueles que veneram. Expulsa de tua soleira os devotos. Não admitas a teu convívio os lábios reverenciais. Com as giestas da última primavera (eram abundantes, lembras-te?), arma a vassoura que trarás sempre contigo. Busca o desprezo, de ti e das coisas, com a mesma infinda minúcia com que outros apenas se buscam, na composição confusa de seus ecos.
António Ramos Rosa
1
Nada está prescrito, nada se cumpre como um destino. A anterioridade
situa-se diante de um olhar que a atravessa e a transforma na possibilidade
do acto de ser um puro começo. Cada palavra consuma o
seu início no extremo de si própria e deixa o campo intacto para a
liberdade do sopro anónimo e dos nomes novos no seu espaço aberto.
Eugénio, de cor, por Pedro Eiras
Não sei que acaso me governa, me dirige os dedos na procura do "cd", coloca agora na aparelhagem Schubert, a "Winterreise".
A que razão obedeço, para ouvir nestes dias de calor uma viagem de inverno? Mas já o frio entra nestas paredes e me amarrota.
O Mestre da Elipse, por Eduardo Pitta
Nos jornais da província, é ou era frequente vir notícia do aniversário do juiz da terra, o trânsito de um notável, ou o matrimónio da filha do senhor presidente da Câmara. Não tem mal esse paroquialismo. É uma forma de "nobilitação" como qualquer outra.
O último livro, por Arnaldo Saraiva
Desde o título, o último livro de Eugénio de Andrade, "Os Sulcos da Sede", impõe-se com a sua marca inconfundível. Como em quase todos os seus títulos, nele entram dois nomes; e, como em vários desses títulos, os dois nomes aliam-se estreitamente, numa relação atributiva, possessiva ou participativa, segundo o mesmo modelo, ou quase: artigo definido (de que pode prescindir) / substantivo / preposição "de", contraída (ou não) com artigo definido / substantivo. Veja-se por exemplo: "Os Lugares do Lume", "O Sal da Língua", "O Peso da Sombra"; ou: "Coração do Dia", "Véspera da Água", "Escrita da Terra", "Limiar dos Pássaros", "Vertentes do Olhar"; ou: "Mar de Setembro", "Ofício de Paciência"; ou ainda, com a pequena diferença pronominal: "O Outro Nome da Terra", "Memória Doutro Rio".
Artur Santos Silva
Eugénio de Andrade é inegavelmente um dos primeiros entre aqueles que fizeram a literatura de Portugal no século XX. Eugénio e Sophia de Mello Breyner são os poetas do meu tempo que mais me marcaram. Eugénio de Andrade foi, ainda, um notável tradutor de poesia e é autor das mais belas descrições sobre o Porto de hoje, cidade onde escolheu viver desde 1950.
Jorge Pinheiro
O meu relacionamento com Eugénio de Andrade tem dois tempos completamente distintos: o primeiro, nos anos 60, quando, após o almoço, o grupo que gravitava em torno de Belas-Artes se reunia no Café de São Lázaro. Aí, a nossa troca de ideias não ultrapassava o que a cada um cabia na rodada de argumentos que circulavam em torno da mesa. Para além deste ritual do café, só acidentalmente nos encontrávamos em casa de algum amigo comum, e as conversas arrastavam-se na modorra emoliente, como é frequente nos serões rotineiros.
O poeta que inspirou o melhor Lopes-Graça, por Teresa Cascudo
"A expressão vocal é sem dúvida o pulsar real da obra de Lopes-Graça." Eugénio de Andrade sintetizou com estas palavras uma das facetas criativas mais marcantes do compositor, o qual, certamente, amou a poesia portuguesa com verdadeira paixão. Lopes-Graça, que é o mais importante autor de música vocal erudita de que há memória em Portugal, fez seus os versos de numerosos poetas, entre os quais se contam Camões, Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, João José Cochofel, Carlos de Oliveira... Foi amigo pessoal de muitos deles (Casais Monteiro, José Régio, Gomes Ferreira - três autores cuja poesia também musicou -, os citados Cochofel e Carlos de Oliveira, entre outros), com os quais também estabeleceu frutuosas relações intelectuais e artísticas.
Poesia de uma musicalidade incontestável, Clotilde Rosa
Em 1965 fui para o Porto onde integrei, como harpista, a Orquestra Sinfónica dessa cidade. O nosso saudoso Jorge Peixinho era então professor de Composição do Conservatório do Porto e foi através dele que conheci um grupo de amigos de grande valor intelectual, artístico e humano. Foi assim que encontrei Eugénio de Andrade, com quem convivi com alguma assiduidade.
Eugénio e a música, Jorge Rodrigues
O Eugénio de Andrade foi-me apresentado no Porto por um outro poeta, o Luís Miguel Nava. Recordo que antes de entrarmos em casa dele estivemos sentados num café a ver desenhos originais do José Rodrigues. Os meus primeiros encontros com o Eugénio deram-se sempre, aliás, na companhia do Luís Miguel e é, assim, natural que nessa época - eu tinha 17 anos - eu achasse melhor ouvir do que falar. Depois, acompanhei-o em algumas das suas vindas a Lisboa, mas sempre num círculo de poetas, o que me obrigava a continuar calado. A música, porém, já por essa altura nos começou a unir. Estou neste momento a reler uma carta dele que me foi enviada do Porto a 14 de Abril de 1981: "Soube-me bem regressar a casa, pôr as frésias do Filipe em água e a "Fantasia" de Schumann no "pick-up"."
A casa: ninho e casulo, por Alfredo Margarido
Ia dizer que me senti impelido a considerar os laços entre uma constante da poesia de Eugénio de Andrade e a relação que com ele comecei a estabelecer entre 1952 e 1954. Foi nesses anos que comecei a ser visitado em Viana do Castelo - onde se registava uma espécie de delegação do grupo surrealista de Lisboa, que contava também com a intervenção de Carlos Eurico da Costa - por alguém que começou por se apresentar como sendo o "inspector da Previdência Social José Fontinhas". Não conhecia suficientemente então o Eugénio para estar a par da relação entre o inspector e o poeta, pelo que Eugénio acrescentou: "Olhe, se quiser cá vir pergunte simplesmente pelo Eugénio de Andrade."
Transparência e sombra em Eugénio de Andrade, por Gastão Cruz
O que tem sido dito e escrito sobre Eugénio de Andrade tende, muitas vezes, para a apresentação da sua poesia com uma tonalidade, se não única, largamente dominante: diurna, transparente, de uma harmonia sem dissonâncias. Ele próprio se definia como "um poeta solar".
Incandescências, por Isabel Pires de Lima
iluminou-se o teu corpo na noite.
Iluminou-se com a palavra exacta
que muda os cavalos em rios,
os rios em aves,
as aves na tua boca.
("Litania", "As palavras interditas")
Com Eugénio de Andrade, quando se tem 20 anos e alguns versos, por José Bento
Conheci Eugénio de Andrade em 1951 (Abril?, Maio?), quando eu tinha 18 anos e era um poeta menos que incipiente e ele completara 28 anos uns meses antes e já colhera o renome que lhe deram "As Mãos e os Frutos" e "Os Amantes sem Dinheiro". Foi um acaso feliz que me permitiu desfrutar do seu convívio afável e afectuoso, embora com a distância que impunha a diferença entre as nossas idades, numa altura em que quase dez anos eram cerca de metade dos anos que eu tinha.
Carta a Eugénio de Andrade, por Almeida Faria
Caro Eugénio,
Lembra-se quando nos conhecemos? Foi em Lisboa nos anos sessenta, eu acabara de publicar "A Paixão", encontrámo-nos no Monte Carlo e você queria por força atravessar a recém-inaugurada Ponte Salazar. Apesar de ser noite, fomos até à outra banda conversando e voltámos, sempre a conversar.
Carta a Eugénio de Andrade, por Mário de Carvalho
Nunca na vida escrevi um poema e esta minha incapacidade não é aqui declarada para legitimar qualquer ufania. Outros tentaram, a maior parte com má estrela, mas ninguém lhes há-de tirar o mérito de se haverem dado à aventura, com mais ou menos consciência dos sagrados terrenos para onde partiam.
Para um retrato de Eugénio, por Fernando Pinto do Amaral
São coisas muito frágeis – uma sede
a transformar-se em água ou num sorriso
aberto à fl or da boca,
a música de um corpo enquanto é verão
e sobretudo a chama de um olhar
que se entrega à primeira alegria,
ao primeiro desejo.
Ele sabe, sempre soube que é difícil
ser fi el ao esplendor de tudo isso,
à melodia ou ao rumor
do sangue. É um segredo
roubado à terra ou à infância
como se a voz dançasse.
Confi dente das aves quando chegam
do sul
ou cúmplice da luz que se demora
à passagem do vento,
mal o vejo daqui
e a sombra que se move entre os seus olhos
é a lição do dia quando morre,
esse rasto de lume que o sol deixa
a arder no mar.
Poema, por Pedro Mexia
O mar de julho
estatístico e pequeno
Carta a Eugénio de Andrade, por Mário Cláudio
Eugénio,
Creio que se recordará daquele verso e meio de Keats, da "Ode to a Grecian Urn", "Heard melodies are sweet but these unheard / Are sweeter", insuperavelmente traduzido pelo Jorge de Sena como "música ouvida é doce, mas inda mais doce / A não ouvida". Acontece que tem sido a memória desta passagem a agulha da bússola da amizade que lhe dedico, e falo dos meus maquinismos afectivos porque dos seus, Eugénio, só você estará em condições de tratar. Talvez em consequência disto mesmo cheguei a acreditar que os discos de vinil da sua colecção constituíam os únicos deste mundo a não sofrer desses riscos fatais que tanto perturbam a audição de quem como nós se enamora do absoluto, e se exaspera com ele.
Adeus a Eugénio, por Eduardo Lourenço
A morte foi-lhe póstuma. Como para sublinhar que não lhe dizia respeito. Realíssima foi a sua longa agonia branca, o estar assistindo à sua vida sem poder fazer nada por ela. Nem nós, seus amigos, vendo o mais solar dos poetas a braços com esse crepúsculo sem manhã. Vivo e consciente, contemplou a última metamorfose, da sua própria margem, aquela que uma luminosa vida de versos lhe construíra como a única barca imune ao negro esquecimento. Aí permanecia o deus verde que sonhara o seu destino como quem dança. Sem anjos e sem pecado. Viera para inventar, cantando-se e encantando-se com o mundo, o seu próprio paraíso.
Uma túlipa amarela para Eugénio, por José da Cruz Santos
à dedicação de Ana Maria Moura
Quantas das edições ou das iniciativas que lhe dediquei não nasceram nesse lugar? Lembro-me que um dia lhe disse, Vou organizar uma semana comemorativa dos seus trinta anos de trabalho. E, praticamente à sua revelia, com a cumplicidade fraterna do Armando Alves, que me acompanhava nos meus sonhos de editor desde os primeiros dias da Inova, lá se começou a construir essa homenagem, a primeira que esta cidade e este país lhe dedicaram, nas antigas instalações de uma instituição desta terra. Do seu distanciamento inicial, avesso como o Eugénio era a sentir-se na ribalta, passou depois a uma participação entusiasmada, e disso dá conta a dedicatória que escreveu no exemplar que depois me ofereceu da primeira edição de "As Mãos e os Frutos".
Adeus, por José Pacheco Pereira
Conheci o Eugénio por volta de 1965, tinha ele acabado de escrever o "Ostinato Rigore". Mais à frente voltarei a este livro, um marco na obra do Eugénio e, de algum modo, na sua vida. Tinha publicado sobre ele um texto ingénuo e juvenil no jornal do liceu, mas que não enganava no entusiasmo. O Eugénio quis conhecer-me e iniciámos uma longa amizade, entrecortada durante vários anos pelas minhas itinerâncias, e retomada por correspondência nos seus últimos anos de lucidez. A última vez que o encontrei foi depois do seu aniversário, pouco antes de morrer e entrava pelos olhos dentro que iria ser o último encontro. Eu sabia, ele não.
Carta a Eugénio de Andrade, por Agustina Bessa-Luís
Querido Eugénio
O melhor não são os sentimentos nobres das pessoas, mas o ácido prazer de amar seja o que for. Uma longa viagem nos une e nos separa. Nunca trocámos cartas porque essa débil força da confi dência esteve sempre para nós fora de moda. Nunca deixámos que as palavras nos dessem lições. As palavras são como caminhos, umas vão dar a qualquer sítio que não nos importa conhecer; outras não servem para nada, e são as melhores.
Dos amigos de Eugénio
Este MIL FOLHAS é inteiramente dedicado a Eugénio de Andrade (1923- 2005), mas não o é no sentido em que os suplementos literários o costumam ser. Não passa em revista a vida e obra do poeta. É apenas um lugar onde alguns amigos de Eugénio vieram despedir-se dele. E fi zeram-no falandonos do Eugénio vivo, já que não há outro do qual se possa falar. Se a morte é ainda sítio onde se tenha morada, mesmo “os amigos não sabem o caminho”, como escreveu em “Branco no Branco”.
Eugénio e os pintores, por Vasco Graça Moura
sei de pintores que se inquietavam por
pressentirem uma relação entre a cor e a palavra.
era nos anos sessenta em s. lázaro, quando
a luz entardecia, muita gente se afadigava no
Alguém lia o eco de um eco, por Manuel Gusmão
É a labareda da seda sob os dedos transmitida
ao corpo todo, seda extraída ao segredo -
tocar e ser tocado, sentir em si
a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga:
e com dedos e sedas manter às labaredas, entre
terror e louvor,
a comburente, combustível composição de tudo: ser
queimado vivo,
ser luminoso.
(poema publicado em "Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas", Edições Asa)
Herberto Helder
É a labareda da seda sob os dedos transmitida
ao corpo todo, seda extraída ao segredo -
tocar e ser tocado, sentir em si
a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga:
e com dedos e sedas manter às labaredas, entre
terror e louvor,
a comburente, combustível composição de tudo: ser
queimado vivo,
ser luminoso.
(poema publicado em "Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas", Edições Asa)
"... por tanta coisa que amamos em comum...", por João Barrento
Era uma vez um poeta que há dez anos me inscrevia a frase que aqui me serve de título na dedicatória de um livro que trazia já nas suas páginas o gosto a sal que temperava o sol do mar da Foz e das planícies alentejanas.
Como se fora sua mãe, por Eduardo Prado Coelho
Tantos são os artigos mais ou menos genéricos que saíram a propósito da morte de Eugénio de Andrade que apetece reduzir drasticamente o foco e falar de um só verso. Ou, como diria Eugénio, encontrar uma, duas, três palavras, que digam tudo ao dizerem o essencial, e em que o essencial consiste em dizerem-se a si mesmas.
Encontro com Eugénio, por Carlos Mendes de Sousa
Guardo recordações das muitas visitas que fiz ao Eugénio, especialmente nos anos 80, quando ele ainda morava da Rua Duque de Palmela. O Eugénio tinha acabado de se reformar e havia construído uma rotina, toda ela comandada pela sua única razão de viver: a poesia. Em geral encontrávamo-nos a seguir ao almoço. Os pontos de encontro sucederam-se; lembro-me especialmente dos cafés Duque e Cifrão. Ele passava a manhã a trabalhar e esta saída era um lugar ritualizado nas suas rotinas. A seguir ao café, íamos até sua casa, onde continuávamos a conversa; ao fim de algum tempo, ele dizia-me que precisava de voltar para o trabalho dos seus versos.
Carta da Grécia, ao Eugénio, por Frederico Lourenço
O barco largou de Egina há coisa de meia hora. Ao meu lado está um jovem alemão a ler "Stilleben mit Früchten". Por acaso, já tinha reparado nele ontem, na pequena esplanada do café, sentado debaixo de uma buganvília. Fiquei na dúvida. "Stilleben mit Früchten" seria "As Mãos e os Frutos", em tradução alemã?
Ontem, na esplanada no café, enquanto eu escrevinhava "poesia do quotidiano" num caderno (No pequeno café no cimo de Egina / Donde se avista o repouso do mar egeu / Fumando um cigarro, bebendo um refresco...), ele lia Eugénio de Andrade, sem saber que eu existia. Tem olhos muito azuis, como aqueles gatos persas de que o Eugénio tanto gosta.
As sílabas cintilantes, Maria Helena da Rocha Pereira
Sílabas, vogais, consoantes, música, luz, tudo emerge da poesia de Eugénio de Andrade, num cenário em que brilha uma natureza primordial. Uma natureza em que se sentem os quatro elementos de Empédocles, um dos seus mestres confessados: água, terra, fogo, ar. E em que as árvores, folhas, flores, pássaros, brilhos e sombras, cores, música e dança a cada momento são convocadas.
Talvez um dos poemas em que estas sinestesias mais claramente se exprimem seja este de "Peso da Sombra", onde se lê:
Como se fossem folhas ainda,
os pássaros cantam
no ar lavado das tílias:
algumas cintilações
vão caindo nestas sílabas.
Bibliografia
30 poemas = 30 poémes = 30 poems, trad. de Ángel Crespo, Michel Chandeigne, Alexis Levitin. Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1993,159 p., português/francês/inglês.
A luz do poeta
Jorge de Sena disse, há muito tempo, que de morte natural nunca ninguém morreu. É por isso que há um sentido em que a morte de Eugénio não é natural e é esse aspecto que nos choca nesta hora triste, sabendo nós embora que a morte pôs termo a um sofrimento prolongado e indescritível; e sabendo também que ele reencontrou o silêncio, a "maior tentação" de uma voz para a qual "as palavras, esse vício ocidental", estavam "gastas, envelhecidas, envilecidas".
Adeus a Eugénio
A morte foi-lhe póstuma. Como para sublinhar que não lhe dizia respeito. Realíssima foi a sua longa agonia branca, o estar assistindo à sua vida sem poder fazer nada por ela.
"Essa espécie de música"
"Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
De um azul tão apaziguado?


"E das consoantes, que lhes dirás, ardendo entre
o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?"
Depoimentos
“É um dos grandes poetas do século XX e na sua poesia, que é uma das mais altas expressões da língua portuguesa, a música das palavras restitui-nos o mundo nas suas fulgurações e fragilidades. Guardo dele uma recordação inapagável. Visitei-o algumas vezes e o texto que sobre mim ele escreveu, numa ocasião eleitoral em que me apoiou, conservo-o no coração com uma das mais belas justificações que acrescentam sentido ao que sou e ao que faço.”
Jorge Sampaio, Presidente da República
De volta aos elementos
Poeta dos elementos, disse-se. Nas citações mais superficiais ou documentadas, Eugénio de Andrade dificilmente fugia do ciclo onde se enredou, a contas com a terra (que nele se unia à figura da própria mãe, morta tinha ele 33 anos, idade máxima de Cristo) e os seus frutos (As Mãos e os Frutos, chamou ele ao primeiro livro que reconhecia como seu), com a água, o ar, o fogo.
Cinco momentos de uma obra
As Mãos e os Frutos
1948
Publicado quando Eugénio de Andrade tinha 25 anos, foi o seu verdadeiro livro de estreia, após algumas tentativas juvenis. "Em face deste livro (...) temos a impressão de que um grande poeta vai chegar à literatura portuguesa", escreveu, na altura, Vitorino Nemésio. As Mãos e os Frutos vai hoje em algumas 20 edições.
Perfil de Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade, considerado um poeta maior da actualidade morreu hoje, no Porto, com 82 anos.
Poemas de Eugénio de Andrade
TENHO O NOME DE UMA FLOR

Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.

in «As Mãos e os Frutos», 1948