• 09 de Fevereiro de 2010
  • 11º - 16º Lisboa

Eugénio de Andrade
Criado segunda-feira, 13 de Junho de 2005
Última actualização terça-feira, 14 de Junho de 2005
 
Manuel Roberto/PÚBLICO
Eugénio de Andrade (à direita) com Mário Cesariny

Lançamento da "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa" de Eugénio de Andrade
Os poetas de Eugénio
Por Luís Miguel Queirós
26.02.2000
Antologiador de Camões e Pessoa, e ainda autor de uma recolha de poesia erótica ("Eros de Passagem") e de duas excelentes selecções de poesia e prosa relativas ao Porto e a Coimbra - respectivamente "Daqui Houve Nome Portugal" e "Memórias de Alegria" -, Eugénio de Andrade oferece-nos agora um panorama geral da poesia portuguesa, desde os cancioneiros medievais até Ruy Belo.
 

Publicada por alturas do Natal, "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa" esgotou em poucos dias a sua tiragem inicial e foi imediatamente reimpressa, sem que o poeta tivesse tido tempo, como pretendia, de lhe acrescentar quatro poetas vivos, o que deverá vir a suceder numa futura terceira edição. Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Cesariny, António Ramos Rosa e Herberto Helder são os nomes escolhidos por Eugénio, que fará a si próprio a injustiça de não se incluir.
A poesia portuguesa tem falta de boas antologias, que são um instrumento de utilidade óbvia para quem começa a ler. Esse será um dos motivos para o sucesso editorial deste livro. O outro é a natural curiosidade de se saber quais são os autores e poemas preferidos de um grande poeta. E Eugénio de Andrade parece ter querido deixar claro, ao escolher o título "antologia pessoal" que estes são os poetas de que gosta, independentemente de critérios de representatividade ou de importância histórica. Por isso mesmo, limitou-se a indicar as datas de nascimento e morte dos poetas, dispensando o aparato crítico e as habituais indicações biobibliográficas. Mesmo as suas notas finais, aliás notáveis referem-se mais a si próprio, enquanto leitor de poesia, do que aos poetas referidos.
Se a crítica a uma antologia é sempre um exercício duvidoso, já que questionar esta inclusão ou lamentar aquela ausência não é mais do que propor uma antologia alternativa, sê-lo-á tanto mais quando o organizador assume expressamente o seu gosto pessoal como bitola única.
Por outro lado, há que ter em conta que uma selecção rigorosamente igual a esta proposta por um autor desconhecido seria, paradoxalmente, um livro diferente. Se Eugénio escolhe um poema que não apreciamos particularmente, sentimo-nos tentados a lê-lo outra vez, procurando compreender o que nele agradou a um poeta de cujo grau de exigência a sua própria obra constituía melhor garantia.
Dito isto, pouco mais nos restaria do que adiantar aqui, sem outros comentários, a lista de poetas e poemas que integram o livro. Todavia, cremos existir um argumento que torna um pouco menos espúria a intenção de propor um juízo crítico desta antologia: a suspeita de que o atributo "pessoal" não se lhe aplica no seu sentido mais radical , como sucede, por exemplo, com "Edoi Lelia Doura", a «antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa" organizada por Herberto Helder.
Em algumas escolhas de Eugénio de Andrade, adivinha-se que este quis reconhecer a qualidade de autores que dificilmente poderá considerar da sua "família" poética. Basta recordar que, numa entrevista relativamente recente, o poeta inventariava, em tom assumidamente provocatório, as suas predilecções e os seus ódios de estimação, incluindo, nesta última categoria, a par do fado, de Wagner ou , de Elisabeth Taylor, o nome de Almada Negreiros. É provável que estivesse a referir-se mais às atitudes teatralizantes ou às inclinações esotéricas do colaborador de "Orpheu" do que à sua obra poética, mas, seja como for, a verdade é que incluiu dois poemas de Almada nesta antologia, da qual rasurou poetas aparentemente não menos antologiáveis.
As cerca de 500 páginas do livro abrem com uma luminosa amostra dos cancioneiros medievais. A própria poesia de Eugénio de Andrade é herdeira da extrema musicalidade dos trovadores galaico-portugueses, da elegância límpida das suas imagens, do seu modo subtil de fundir num só sentimento as inclinações amorosas e as impressões provocadas pelo mundo natural. O poeta chegou mesmo a afirmar expressamente que a sua poesia "mergulha as raízes em Pêro Meogo, Martin Codax e João Zorro". Três autores presentes nesta antologia, com destaque para o primeiro, de quem são seleccionados quatro poemas, uma amostra mais ampla do que a concedida, por exemplo, a Garrett ou João de Deus. Nos poetas anteriores a Gil Vicente e Bernardim Ribeiro, só D. Dinis está tão bem representado como Meogo. Além de poemas emblemáticos, como "Ai flores, ai flores do verde pino" ou "Levantou-s'a velida", Eugénio incluiu a chamada "pastorela do papagaio" uma composição que, estranhamente, passou despercebida a Alexandre Pinheiro Torres, cuja monumental "Antologia da Poesia Portuguesa" integra nada menos do que 43 poemas de D. Dinis.
Ainda antes de entrar no Cancioneiro de Garcia de Resende, o organizador reserva um vasto capítulo aos romances tradicionais, desde a célebre "Nau Catrineta", que muitos se recordarão de ouvir as avós dizer de cor, até cantilenas não menos preciosas, como as da "Bela Infanta", da "Silvaninha" ou de "Santa Iria". Não se sabendo quem escreveu estes poemas, e em que momento preciso foram produzidos, a tendência dos antologiadores tem sido a de os ignorar. Uma injustiça que Eugénio felizmente reparou.
Se contemplou 13 poetas dos primeiros cancioneiros, o organizador foi já bastante mais avaro a seleccionar a poesia palaciana do Cancioneiro de Garcia de Resende. Descontados os grandes poetas renascentistas que nele ainda figuram, como Gil Vicente, Bernardim Ribeiro ou Sá de Miranda, Eugénio escolheu apenas um vilancete de Francisco de Sousa, a célebre cantiga «Senhora, partem tam tristes", de João Roiz de Castelo-Branco, e as extensas "Trovas à morte de D. Inês de Castro", do próprio Garcia de Resende. Em compensação, Gil Vicente, Bernardim e Cristóvão Falcão estão abundantemente representados. E Sã de Miranda ocupa 17 páginas, porque se quis dar na íntegra, e ainda bem, a sua extraordinária carta em verso a D. João III. Já dos seus sonetos, Eugénio escolheu apenas dois, entre os quais se conta o que abre com esse verso - "O sol é grande, caem co'a calma as aves," - que atravessará os séculos para ecoar na poesia de Gastão Cruz. Talvez o Sã de Miranda sonetista merecesse mais ampla amostra. Refira-se apenas o soneto que abre com o verso "Desarrezoado amor, dentro em meu peito" e que termina com essa pergunta tão forte e tão estranha para a época: "Que farei quando tudo arde?"
Notável é a escolha do Camões lírico e épico, que se estende por (escassas) 40 páginas. Outra coisa não seria de esperar do autor de "Versos e alguma prosa de Luís de Camões" (1972), que continua a ser, sem qualquer dúvida, a melhor antologia camoniana alguma vez organizada.
Diogo Bernardes, com cinco poemas, pode considerar-se dos autores mais bem representados. Mas o antologiador já parece apreciar menos o seu irmão Frei Agostinho da Cruz, de quem apenas selecciona um soneto, ignorando as éclogas e as elegias.
Dos séculos XVI e XVII, Eugénio apenas inclui, além dos poetas já referidos, António Ferreira e Rodrigues Lobo, deixando sensatamente de fora os autores da "Fénix Renascida" e do "Postilhão de Apolo". Mas já parece um pouco mais surpreendente a ausência, de D. Francisco Manuel de Melo. E não se mostra mais piedoso com os autores setecentistas. Dois poemas de Nicolau Tolentino e quatro de Bocage arrumam o século XVIII. É certo que será difícil encontrar hoje alguma coisa legível na vastíssima obra de Filinto Elísio, já para não falar de autores mais obscuros. Todavia, poderá surpreender alguns leitores a exclusão de Correia Garção e da Marquesa de Alorna.
A abrir o século XIX, três poesias de Almeida Garrett, incluindo a belíssima "Barca Bela". Segue-se António Feliciano de Castilho, resumido à cantilena "Os treze anos". De facto, por muitos que possam ter sido os méritos pedagógicos de Castilho, bem se pode percorrer toda a sua obra poética que não se encontra nada, além desta cantiga, que mantenha hoje alguma frescura. Também não choca a ausência de Alexandre Herculano, cuja poesia, ao contrário da obra historiográfica, não resistiu ao tempo.
Já João de Deus não foi esquecido, ainda que os apreciadores da vertente mais satírica da sua obra possam eventualmente lamentar que não figure neste volume a sua sátira ao dinheiro, um poema que, no seu tom popular e coloquial e no seu recurso a onomatopeias, quase faz pensar em Cesariny.
Antero de Quental, Cesário Verde e António Nobre são, para Eugénio - e quem o contestará? - os grandes poetas do século XIX português. Deste último, assinale-se a inclusão do notável poema ao papa Leão XIII, que não costuma aparecer nas antologias, com excepção da "Antologia de Poetas Portugueses Modernos", co-organizada por Fernando Pessoa e António Botto.
Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Eugénio de Castro, Camilo Pessanha, Angelo de Lima, Teixeira de Pascoaes e Afonso Duarte são os restantes poetas que o organizador considera, de entre os nascidos antes de Fernando Pessoa. De fora ficam poetas habitualmente antologiados, como o dispensável Soares de Passos e o talvez mais interessante Guilherme de Azevedo, que em alguns poemas prenuncia Cesário. E entre Pascoaes e Afonso Duarte, poderia ser desculpável a tentação de incluir um poema ou dois de António Patrício.
Em Gomes Leal e Pascoaes, Eugénio opta por apresentar excertos de alguns poemas, uma estratégia justificável em relação ao longuíssimo "Regresso ao Paraíso" de Pascoaes, mas que poderia ter-se evitado com a "Nevrose Nocturna" de Gomes Leal - o antologiador seguiu aqui o precedente estabelecido por Nemésio -, onde o que se exclui é pouco extenso e não parece enfraquecer o restante.
Mesmo que não se partilhe do entusiasmo desmedido de Pinheiro Torres por Guerra Junqueiro - dedica-lhe mais de 120 páginas da sua antologia -, talvez o autor de "A Velhice do Padre Eterno" merecesse mais, ainda assim, do que os dois poemas que o organizador conseguiu salvar. Das obras de Eugénio de Castro, Ângelo de Lima - uma das surpresas desta recolha - e Afonso Duarte, Eugénio de Andrade escolheu respectivamente três poemas.
Já Pessanha é, depois de Camões e Pessoa, o poeta mais representado, o que, dada a breve extensão da obra que deixou, é tanto mais significativo. Mas Eugénio já muitas vezes assumiu as suas particulares dívidas a Cesário e Pessanha. Respondendo a um entrevistador que lhe perguntava quais seriam os dez objectos que levaria para a Lua, cita, entre discos de Mozart e Beethoven, a "Clepsidra", acrescentando: "e chega de poesia portuguesa".
Mais surpreendente é a vasta selecção de Pascoaes, de quem selecciona nove poemas. Apesar da amizade que os ligou, Eugénio nunca deu mostras de partilhar do entusiasmo que outros poetas seus contemporâneos, como Sena ou Cesariny, manifestaram pela obra do poeta do Marão.
Tal como a de Camões, também a escolha de Pessoa - valorizando, por ordem decrescente o Pessoa ortónimo, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro - é excelente, embora, em poetas desta grandeza e popularidade, nunca se consiga evitar a sensação de que faltam alguns poemas indispensáveis. Igualmente bem representado está Mário de Sá Carneiro (oito poemas), que antecede mais quatro poetas nascidos na década de 90 do século passado: Irene Lisboa; Almada Negreiros, Florbela Espanca (com três belos sonetos que não integram o "cânone" habitual da poetisa) e António Botto. A ausência mais contestável, neste período, talvez seja a de Edmundo de Bettencourt.
De José Gomes Ferreira (1900-1985) a Ruy Belo (1933-1978), Eugénio escolhe 13 poemas. Dado que esta última parte trata da poesia contemporânea, para a qual não existe ainda, quer em termos de autores, quer de poemas, um cânone solidamente estabelecido, é natural que o gosto de Eugénio nem sempre coincida com o de todos os leitores desta antologia.
Alguns poderão considerar, por exemplo, que Miguel Torga estará um tanto sobrevalorizado. E nas escolhas de Vitorino Nemésio e Ruy Cinatti, as inclinações pessoais do antologiador parecem ter sido particularmente decisivas. Nemésio está, de resto, abundantemente representado, mas haverá quem sinta a falta dos grandes poemas de "Bicho Harmonioso", como "Vaga Verde" ou "Navio de Sal", e de algumas das suas melhores coisas de livros posteriores, desde os poemas de amor tardio de "Andamento Holandês" ao belíssimo "A Virgem dos Sete Véus", de "Limite de Idade".
Na selecção de José Régio, talvez não fosse absurdo esperar a inclusão de alguns poemas do livro póstumo "Música Ligeira", cuja musicalidade, por vezes claramente devedora do cancioneiro medieval, deveria poder agradar a um poeta como Eugénio de Andrade. Certeiras, embora breves, são as escolhas de Pedro Homem de Mello e Manuel da Fonseca.
Já Carlos Queiroz e Adolfo Casais Monteiro, numa triagem tão rigorosa como esta - e mesmo tendo em conta os dois poemas que Eugénio escolhe de cada um deles -, talvez pudessem ter sido dispensados sem perda de maior. Entre os presencistas, o cronicamente esquecido António de Sousa, não será menos interessante. E naturalmente, na subjectividade inerente qualquer antologia, haverá sempre quem lamente uma ou outra exclusão. Entre os autores mais recentes, alguns candidatos possíveis seriam Raul de Carvalho, apesar da sua extrema irregularidade, Natália Correia, ou António Maria Lisboa, que talvez não tenha tido tempo de atingir a altura que os seus admiradores atribuem.
Com Jorge de Sena e Carlos de Oliveira, ambos condignamente representados em quantidade e qualidade, atinge-se outro dos pontos altos desta antologia. E também os poemas que representam Alexandre O'Neill e David Mourão-Ferreira são bem escolhidos, embora, em ambos os casos, a amostra pudesse ser um pouco mais ampla.
A antologia fecha com cinco textos de Ruy Belo, todos eles notáveis, a começar em "A Mão no Arado" e a terminar nessa obra-prima do poema longo que é "Muriel". O amor sofrido cantado pelos trovadores medievais prolonga-se até este poema de Ruy Belo, que finda luminosamente esta antologia. Talvez este seja um argumento para a ausência um pouco surpreendente de Luiza Neto Jorge (1939-1989).
Título: Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Autor: Eugénio de Andrade
Editor: Campo das Letras
495 págs. 20 euros

mais notícias
14.06.2005
14.06.2005
14.06.2005
14.06.2005
14.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
13.06.2005
11.07.2001
26.02.2000
 
 

AUXILIAR
O velho poeta, por Jorge de Sousa Braga
O seu desejo era que plantassem
um espinheiro numa nesga de

terra frente ao mar e ao rio
e que ele florisse nem

que fosse uma única vez
Esse espinheiro protegê-lo-ia

mais do frio que um edredão
A nesga de terra continua lá

e o mar e o rio e a manhã
Só o espinheiro e o poeta

é que não
Carta a Eugénio de Andrade, por Luis Cernuda
Tres Cruces,11
Coyacán
México, D. F.
México
Março 3, 1959
Desde há dias que queria escrever-lhe e agradecer-lhe o seu livro "Coração do Dia"; mas não tinha nem tenho a certeza que a sua direcção mudou, pois no envelope onde vinha o seu livro aparece como Rua Coelho Neto, nº 40 B, 1º. Seja como for, vou enviar esta carta para essa direcção.
O sal da terra, por José Tolentino Mendonça
Desconfia daqueles que veneram. Expulsa de tua soleira os devotos. Não admitas a teu convívio os lábios reverenciais. Com as giestas da última primavera (eram abundantes, lembras-te?), arma a vassoura que trarás sempre contigo. Busca o desprezo, de ti e das coisas, com a mesma infinda minúcia com que outros apenas se buscam, na composição confusa de seus ecos.
António Ramos Rosa
1
Nada está prescrito, nada se cumpre como um destino. A anterioridade
situa-se diante de um olhar que a atravessa e a transforma na possibilidade
do acto de ser um puro começo. Cada palavra consuma o
seu início no extremo de si própria e deixa o campo intacto para a
liberdade do sopro anónimo e dos nomes novos no seu espaço aberto.
Eugénio, de cor, por Pedro Eiras
Não sei que acaso me governa, me dirige os dedos na procura do "cd", coloca agora na aparelhagem Schubert, a "Winterreise".
A que razão obedeço, para ouvir nestes dias de calor uma viagem de inverno? Mas já o frio entra nestas paredes e me amarrota.
O Mestre da Elipse, por Eduardo Pitta
Nos jornais da província, é ou era frequente vir notícia do aniversário do juiz da terra, o trânsito de um notável, ou o matrimónio da filha do senhor presidente da Câmara. Não tem mal esse paroquialismo. É uma forma de "nobilitação" como qualquer outra.
O último livro, por Arnaldo Saraiva
Desde o título, o último livro de Eugénio de Andrade, "Os Sulcos da Sede", impõe-se com a sua marca inconfundível. Como em quase todos os seus títulos, nele entram dois nomes; e, como em vários desses títulos, os dois nomes aliam-se estreitamente, numa relação atributiva, possessiva ou participativa, segundo o mesmo modelo, ou quase: artigo definido (de que pode prescindir) / substantivo / preposição "de", contraída (ou não) com artigo definido / substantivo. Veja-se por exemplo: "Os Lugares do Lume", "O Sal da Língua", "O Peso da Sombra"; ou: "Coração do Dia", "Véspera da Água", "Escrita da Terra", "Limiar dos Pássaros", "Vertentes do Olhar"; ou: "Mar de Setembro", "Ofício de Paciência"; ou ainda, com a pequena diferença pronominal: "O Outro Nome da Terra", "Memória Doutro Rio".
Artur Santos Silva
Eugénio de Andrade é inegavelmente um dos primeiros entre aqueles que fizeram a literatura de Portugal no século XX. Eugénio e Sophia de Mello Breyner são os poetas do meu tempo que mais me marcaram. Eugénio de Andrade foi, ainda, um notável tradutor de poesia e é autor das mais belas descrições sobre o Porto de hoje, cidade onde escolheu viver desde 1950.
Jorge Pinheiro
O meu relacionamento com Eugénio de Andrade tem dois tempos completamente distintos: o primeiro, nos anos 60, quando, após o almoço, o grupo que gravitava em torno de Belas-Artes se reunia no Café de São Lázaro. Aí, a nossa troca de ideias não ultrapassava o que a cada um cabia na rodada de argumentos que circulavam em torno da mesa. Para além deste ritual do café, só acidentalmente nos encontrávamos em casa de algum amigo comum, e as conversas arrastavam-se na modorra emoliente, como é frequente nos serões rotineiros.
O poeta que inspirou o melhor Lopes-Graça, por Teresa Cascudo
"A expressão vocal é sem dúvida o pulsar real da obra de Lopes-Graça." Eugénio de Andrade sintetizou com estas palavras uma das facetas criativas mais marcantes do compositor, o qual, certamente, amou a poesia portuguesa com verdadeira paixão. Lopes-Graça, que é o mais importante autor de música vocal erudita de que há memória em Portugal, fez seus os versos de numerosos poetas, entre os quais se contam Camões, Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, João José Cochofel, Carlos de Oliveira... Foi amigo pessoal de muitos deles (Casais Monteiro, José Régio, Gomes Ferreira - três autores cuja poesia também musicou -, os citados Cochofel e Carlos de Oliveira, entre outros), com os quais também estabeleceu frutuosas relações intelectuais e artísticas.
Poesia de uma musicalidade incontestável, Clotilde Rosa
Em 1965 fui para o Porto onde integrei, como harpista, a Orquestra Sinfónica dessa cidade. O nosso saudoso Jorge Peixinho era então professor de Composição do Conservatório do Porto e foi através dele que conheci um grupo de amigos de grande valor intelectual, artístico e humano. Foi assim que encontrei Eugénio de Andrade, com quem convivi com alguma assiduidade.
Eugénio e a música, Jorge Rodrigues
O Eugénio de Andrade foi-me apresentado no Porto por um outro poeta, o Luís Miguel Nava. Recordo que antes de entrarmos em casa dele estivemos sentados num café a ver desenhos originais do José Rodrigues. Os meus primeiros encontros com o Eugénio deram-se sempre, aliás, na companhia do Luís Miguel e é, assim, natural que nessa época - eu tinha 17 anos - eu achasse melhor ouvir do que falar. Depois, acompanhei-o em algumas das suas vindas a Lisboa, mas sempre num círculo de poetas, o que me obrigava a continuar calado. A música, porém, já por essa altura nos começou a unir. Estou neste momento a reler uma carta dele que me foi enviada do Porto a 14 de Abril de 1981: "Soube-me bem regressar a casa, pôr as frésias do Filipe em água e a "Fantasia" de Schumann no "pick-up"."
A casa: ninho e casulo, por Alfredo Margarido
Ia dizer que me senti impelido a considerar os laços entre uma constante da poesia de Eugénio de Andrade e a relação que com ele comecei a estabelecer entre 1952 e 1954. Foi nesses anos que comecei a ser visitado em Viana do Castelo - onde se registava uma espécie de delegação do grupo surrealista de Lisboa, que contava também com a intervenção de Carlos Eurico da Costa - por alguém que começou por se apresentar como sendo o "inspector da Previdência Social José Fontinhas". Não conhecia suficientemente então o Eugénio para estar a par da relação entre o inspector e o poeta, pelo que Eugénio acrescentou: "Olhe, se quiser cá vir pergunte simplesmente pelo Eugénio de Andrade."
Transparência e sombra em Eugénio de Andrade, por Gastão Cruz
O que tem sido dito e escrito sobre Eugénio de Andrade tende, muitas vezes, para a apresentação da sua poesia com uma tonalidade, se não única, largamente dominante: diurna, transparente, de uma harmonia sem dissonâncias. Ele próprio se definia como "um poeta solar".
Incandescências, por Isabel Pires de Lima
iluminou-se o teu corpo na noite.
Iluminou-se com a palavra exacta
que muda os cavalos em rios,
os rios em aves,
as aves na tua boca.
("Litania", "As palavras interditas")
Com Eugénio de Andrade, quando se tem 20 anos e alguns versos, por José Bento
Conheci Eugénio de Andrade em 1951 (Abril?, Maio?), quando eu tinha 18 anos e era um poeta menos que incipiente e ele completara 28 anos uns meses antes e já colhera o renome que lhe deram "As Mãos e os Frutos" e "Os Amantes sem Dinheiro". Foi um acaso feliz que me permitiu desfrutar do seu convívio afável e afectuoso, embora com a distância que impunha a diferença entre as nossas idades, numa altura em que quase dez anos eram cerca de metade dos anos que eu tinha.
Carta a Eugénio de Andrade, por Almeida Faria
Caro Eugénio,
Lembra-se quando nos conhecemos? Foi em Lisboa nos anos sessenta, eu acabara de publicar "A Paixão", encontrámo-nos no Monte Carlo e você queria por força atravessar a recém-inaugurada Ponte Salazar. Apesar de ser noite, fomos até à outra banda conversando e voltámos, sempre a conversar.
Carta a Eugénio de Andrade, por Mário de Carvalho
Nunca na vida escrevi um poema e esta minha incapacidade não é aqui declarada para legitimar qualquer ufania. Outros tentaram, a maior parte com má estrela, mas ninguém lhes há-de tirar o mérito de se haverem dado à aventura, com mais ou menos consciência dos sagrados terrenos para onde partiam.
Para um retrato de Eugénio, por Fernando Pinto do Amaral
São coisas muito frágeis – uma sede
a transformar-se em água ou num sorriso
aberto à fl or da boca,
a música de um corpo enquanto é verão
e sobretudo a chama de um olhar
que se entrega à primeira alegria,
ao primeiro desejo.
Ele sabe, sempre soube que é difícil
ser fi el ao esplendor de tudo isso,
à melodia ou ao rumor
do sangue. É um segredo
roubado à terra ou à infância
como se a voz dançasse.
Confi dente das aves quando chegam
do sul
ou cúmplice da luz que se demora
à passagem do vento,
mal o vejo daqui
e a sombra que se move entre os seus olhos
é a lição do dia quando morre,
esse rasto de lume que o sol deixa
a arder no mar.
Poema, por Pedro Mexia
O mar de julho
estatístico e pequeno
Carta a Eugénio de Andrade, por Mário Cláudio
Eugénio,
Creio que se recordará daquele verso e meio de Keats, da "Ode to a Grecian Urn", "Heard melodies are sweet but these unheard / Are sweeter", insuperavelmente traduzido pelo Jorge de Sena como "música ouvida é doce, mas inda mais doce / A não ouvida". Acontece que tem sido a memória desta passagem a agulha da bússola da amizade que lhe dedico, e falo dos meus maquinismos afectivos porque dos seus, Eugénio, só você estará em condições de tratar. Talvez em consequência disto mesmo cheguei a acreditar que os discos de vinil da sua colecção constituíam os únicos deste mundo a não sofrer desses riscos fatais que tanto perturbam a audição de quem como nós se enamora do absoluto, e se exaspera com ele.
Adeus a Eugénio, por Eduardo Lourenço
A morte foi-lhe póstuma. Como para sublinhar que não lhe dizia respeito. Realíssima foi a sua longa agonia branca, o estar assistindo à sua vida sem poder fazer nada por ela. Nem nós, seus amigos, vendo o mais solar dos poetas a braços com esse crepúsculo sem manhã. Vivo e consciente, contemplou a última metamorfose, da sua própria margem, aquela que uma luminosa vida de versos lhe construíra como a única barca imune ao negro esquecimento. Aí permanecia o deus verde que sonhara o seu destino como quem dança. Sem anjos e sem pecado. Viera para inventar, cantando-se e encantando-se com o mundo, o seu próprio paraíso.
Uma túlipa amarela para Eugénio, por José da Cruz Santos
à dedicação de Ana Maria Moura
Quantas das edições ou das iniciativas que lhe dediquei não nasceram nesse lugar? Lembro-me que um dia lhe disse, Vou organizar uma semana comemorativa dos seus trinta anos de trabalho. E, praticamente à sua revelia, com a cumplicidade fraterna do Armando Alves, que me acompanhava nos meus sonhos de editor desde os primeiros dias da Inova, lá se começou a construir essa homenagem, a primeira que esta cidade e este país lhe dedicaram, nas antigas instalações de uma instituição desta terra. Do seu distanciamento inicial, avesso como o Eugénio era a sentir-se na ribalta, passou depois a uma participação entusiasmada, e disso dá conta a dedicatória que escreveu no exemplar que depois me ofereceu da primeira edição de "As Mãos e os Frutos".
Adeus, por José Pacheco Pereira
Conheci o Eugénio por volta de 1965, tinha ele acabado de escrever o "Ostinato Rigore". Mais à frente voltarei a este livro, um marco na obra do Eugénio e, de algum modo, na sua vida. Tinha publicado sobre ele um texto ingénuo e juvenil no jornal do liceu, mas que não enganava no entusiasmo. O Eugénio quis conhecer-me e iniciámos uma longa amizade, entrecortada durante vários anos pelas minhas itinerâncias, e retomada por correspondência nos seus últimos anos de lucidez. A última vez que o encontrei foi depois do seu aniversário, pouco antes de morrer e entrava pelos olhos dentro que iria ser o último encontro. Eu sabia, ele não.
Carta a Eugénio de Andrade, por Agustina Bessa-Luís
Querido Eugénio
O melhor não são os sentimentos nobres das pessoas, mas o ácido prazer de amar seja o que for. Uma longa viagem nos une e nos separa. Nunca trocámos cartas porque essa débil força da confi dência esteve sempre para nós fora de moda. Nunca deixámos que as palavras nos dessem lições. As palavras são como caminhos, umas vão dar a qualquer sítio que não nos importa conhecer; outras não servem para nada, e são as melhores.
Dos amigos de Eugénio
Este MIL FOLHAS é inteiramente dedicado a Eugénio de Andrade (1923- 2005), mas não o é no sentido em que os suplementos literários o costumam ser. Não passa em revista a vida e obra do poeta. É apenas um lugar onde alguns amigos de Eugénio vieram despedir-se dele. E fi zeram-no falandonos do Eugénio vivo, já que não há outro do qual se possa falar. Se a morte é ainda sítio onde se tenha morada, mesmo “os amigos não sabem o caminho”, como escreveu em “Branco no Branco”.
Eugénio e os pintores, por Vasco Graça Moura
sei de pintores que se inquietavam por
pressentirem uma relação entre a cor e a palavra.
era nos anos sessenta em s. lázaro, quando
a luz entardecia, muita gente se afadigava no
Alguém lia o eco de um eco, por Manuel Gusmão
É a labareda da seda sob os dedos transmitida
ao corpo todo, seda extraída ao segredo -
tocar e ser tocado, sentir em si
a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga:
e com dedos e sedas manter às labaredas, entre
terror e louvor,
a comburente, combustível composição de tudo: ser
queimado vivo,
ser luminoso.
(poema publicado em "Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas", Edições Asa)
Herberto Helder
É a labareda da seda sob os dedos transmitida
ao corpo todo, seda extraída ao segredo -
tocar e ser tocado, sentir em si
a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga:
e com dedos e sedas manter às labaredas, entre
terror e louvor,
a comburente, combustível composição de tudo: ser
queimado vivo,
ser luminoso.
(poema publicado em "Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas", Edições Asa)
"... por tanta coisa que amamos em comum...", por João Barrento
Era uma vez um poeta que há dez anos me inscrevia a frase que aqui me serve de título na dedicatória de um livro que trazia já nas suas páginas o gosto a sal que temperava o sol do mar da Foz e das planícies alentejanas.
Como se fora sua mãe, por Eduardo Prado Coelho
Tantos são os artigos mais ou menos genéricos que saíram a propósito da morte de Eugénio de Andrade que apetece reduzir drasticamente o foco e falar de um só verso. Ou, como diria Eugénio, encontrar uma, duas, três palavras, que digam tudo ao dizerem o essencial, e em que o essencial consiste em dizerem-se a si mesmas.
Encontro com Eugénio, por Carlos Mendes de Sousa
Guardo recordações das muitas visitas que fiz ao Eugénio, especialmente nos anos 80, quando ele ainda morava da Rua Duque de Palmela. O Eugénio tinha acabado de se reformar e havia construído uma rotina, toda ela comandada pela sua única razão de viver: a poesia. Em geral encontrávamo-nos a seguir ao almoço. Os pontos de encontro sucederam-se; lembro-me especialmente dos cafés Duque e Cifrão. Ele passava a manhã a trabalhar e esta saída era um lugar ritualizado nas suas rotinas. A seguir ao café, íamos até sua casa, onde continuávamos a conversa; ao fim de algum tempo, ele dizia-me que precisava de voltar para o trabalho dos seus versos.
Carta da Grécia, ao Eugénio, por Frederico Lourenço
O barco largou de Egina há coisa de meia hora. Ao meu lado está um jovem alemão a ler "Stilleben mit Früchten". Por acaso, já tinha reparado nele ontem, na pequena esplanada do café, sentado debaixo de uma buganvília. Fiquei na dúvida. "Stilleben mit Früchten" seria "As Mãos e os Frutos", em tradução alemã?
Ontem, na esplanada no café, enquanto eu escrevinhava "poesia do quotidiano" num caderno (No pequeno café no cimo de Egina / Donde se avista o repouso do mar egeu / Fumando um cigarro, bebendo um refresco...), ele lia Eugénio de Andrade, sem saber que eu existia. Tem olhos muito azuis, como aqueles gatos persas de que o Eugénio tanto gosta.
As sílabas cintilantes, Maria Helena da Rocha Pereira
Sílabas, vogais, consoantes, música, luz, tudo emerge da poesia de Eugénio de Andrade, num cenário em que brilha uma natureza primordial. Uma natureza em que se sentem os quatro elementos de Empédocles, um dos seus mestres confessados: água, terra, fogo, ar. E em que as árvores, folhas, flores, pássaros, brilhos e sombras, cores, música e dança a cada momento são convocadas.
Talvez um dos poemas em que estas sinestesias mais claramente se exprimem seja este de "Peso da Sombra", onde se lê:
Como se fossem folhas ainda,
os pássaros cantam
no ar lavado das tílias:
algumas cintilações
vão caindo nestas sílabas.
Bibliografia
30 poemas = 30 poémes = 30 poems, trad. de Ángel Crespo, Michel Chandeigne, Alexis Levitin. Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1993,159 p., português/francês/inglês.
A luz do poeta
Jorge de Sena disse, há muito tempo, que de morte natural nunca ninguém morreu. É por isso que há um sentido em que a morte de Eugénio não é natural e é esse aspecto que nos choca nesta hora triste, sabendo nós embora que a morte pôs termo a um sofrimento prolongado e indescritível; e sabendo também que ele reencontrou o silêncio, a "maior tentação" de uma voz para a qual "as palavras, esse vício ocidental", estavam "gastas, envelhecidas, envilecidas".
Adeus a Eugénio
A morte foi-lhe póstuma. Como para sublinhar que não lhe dizia respeito. Realíssima foi a sua longa agonia branca, o estar assistindo à sua vida sem poder fazer nada por ela.
"Essa espécie de música"
"Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
De um azul tão apaziguado?


"E das consoantes, que lhes dirás, ardendo entre
o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?"
Depoimentos
“É um dos grandes poetas do século XX e na sua poesia, que é uma das mais altas expressões da língua portuguesa, a música das palavras restitui-nos o mundo nas suas fulgurações e fragilidades. Guardo dele uma recordação inapagável. Visitei-o algumas vezes e o texto que sobre mim ele escreveu, numa ocasião eleitoral em que me apoiou, conservo-o no coração com uma das mais belas justificações que acrescentam sentido ao que sou e ao que faço.”
Jorge Sampaio, Presidente da República
De volta aos elementos
Poeta dos elementos, disse-se. Nas citações mais superficiais ou documentadas, Eugénio de Andrade dificilmente fugia do ciclo onde se enredou, a contas com a terra (que nele se unia à figura da própria mãe, morta tinha ele 33 anos, idade máxima de Cristo) e os seus frutos (As Mãos e os Frutos, chamou ele ao primeiro livro que reconhecia como seu), com a água, o ar, o fogo.
Cinco momentos de uma obra
As Mãos e os Frutos
1948
Publicado quando Eugénio de Andrade tinha 25 anos, foi o seu verdadeiro livro de estreia, após algumas tentativas juvenis. "Em face deste livro (...) temos a impressão de que um grande poeta vai chegar à literatura portuguesa", escreveu, na altura, Vitorino Nemésio. As Mãos e os Frutos vai hoje em algumas 20 edições.
Perfil de Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade, considerado um poeta maior da actualidade morreu hoje, no Porto, com 82 anos.
Poemas de Eugénio de Andrade
TENHO O NOME DE UMA FLOR

Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.

in «As Mãos e os Frutos», 1948