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Smith, em Iowa, assobia alegremente enquanto enche o tanque do seu carro com bioetanol. A sua consciência está tranquila: enquanto proclama independência face ao Médio Oriente, ajuda a combater as alterações climáticas e, pelo caminho, dá uma mãozinha aos produtores de milho do seu país.
Mais a sul, do outro lado da fronteira, López paga a sua obrigatória tortilla 60 por cento mais cara que há um ano. Revolta-se, mas reconhece-se impotente. Ninguém no México está preparado para abdicar deste alimento básico da sua dieta mas como competir com milhões de veículos ávidos de combustível?
O boom dos biocombustíveis está a abrir novas janelas de oportunidade para o mundo rural, tanto nos países ricos como pobres. Encerra promessas de independência energética, benefícios ambientais e vantagens sociais mas já começaram a soar campainhas de alerta sobre as consequências do trilho que se está a seguir.
O aumento do preço dos alimentos, das tortillas ao xarope para a coca-cola, das rações dos porcos ao leite, passou de receio a realidade, mais grave nuns casos que outros mas ainda difícil de prever até onde poderá ir. Vários analistas contrapõem que a alta de preços pode ser apenas conjuntural, corrigindo-se a curto prazo.
Outros argumentam que esta subida vem repor poder de compra aos agricultores, que têm assistido a uma constante quebra de preços nos últimos anos, atingindo-se hoje os valores mais baixos de sempre.
Plantas a movimentar carros
As alterações climáticas, a independência energética e a necessidade sentida pelos agricultores a nível global – e por diferentes razões consoante os lados do Hemisfério – de alcançar um novo fôlego para a sua actividade levou a que as atenções se virassem para os campos em busca de combustíveis alternativos. A alta do preço do petróleo deu o tiro de partida.
A tecnologia já existia. No Brasil, durante a crise energética dos anos 70, o álcool feito a partir do açúcar da cana, passou a substituir parte da gasolina usada. Antes disso, nos tempos da Lei Seca nos EUA, centenas de destilarias clandestinas transformavam tudo o que tivesse amido em álcool, só que desta vez usado como “carburante” humano.
O álcool, que em linguagem de biocombustíveis passou a ser conhecido como etanol ou bioetanol, além do peso que já tem no Brasil, ganhou terreno nos EUA, aqui produzido a partir do milho.
Já para substituir o gasóleo, havia que aproveitar tudo o que fosse oleoso. Sementes como a soja, a colza, mas sobretudo o óleo de palma cultivado na Indonésia e Malásia, são transformados em biodiesel. A Europa, com excedentes de gasolina, virou-se para esta opção.
Com custos competitivos face à galopada dos preços do petróleo, os biocombustíveis estão, nos últimos tempos, no centro das prioridades – e dos discursos – dos responsáveis políticos da Europa e EUA. Mas há iniciativas por todo o planeta, tanto por países produtores como grandes consumidores, como Brasil, China, Japão, Índia e África do Sul.
E está a levar a uma corrida dos principais actores neste mercado em direcção aos terrenos mais atractivos, com destaque para o Brasil. Louis Dreyfus, o gigante francês de géneros alimentícios, já anunciou que irá duplicar a sua capacidade de produção de etanol a partir de cana-de-açúcar, prometendo tornar-se o número dois no mercado brasileiro, logo a seguir ao grupo Tavares Melo. Também a portuguesa Martifer está a planear investimentos idênticos em terras de Vera Cruz.
O aumento das metas de penetração destas alternativas no mercado dos combustíveis está a levar a um crescendo da procura e da oferta. A novidade criada gera já inúmeras incógnitas e receios. A competição entre comida e combustíveis, a destruição das florestas para dar espaço às culturas nos trópicos e as dúvidas sobre o que efectivamente se ganha com esta solução em termos energéticos – e portanto de emissões – divide as opiniões.
O reverso da medalha
A imensa aposta que os EUA estão a fazer na produção de etanol a partir de milho – e que já os está a pôr à frente do Brasil como o maior produtor deste substituto para a gasolina - fez o delírio dos produtores destes cerais, incentivados ainda mais pela actual escalada dos preços. E deixou os mexicanos à beira de um ataque de nervos.
Perante a crescente indignação do seu povo face ao encarecimento desse autêntico símbolo nacional que são as tortillas, o Presidente Felipe Calderón mandou o espírito do comércio livre às urtigas e, em Janeiro, forçou os produtores a assinar um acordo para fixar os preços dos alimentos feitos à base de milho.
“O aumento excepcional dos preços dos cereais, pressionados por quedas na produção e pela procura de biocombustíveis, tem fortes implicações nas outras matérias-primas agrícolas: apesar dos preços nas oleoginosas também terem subido, os ganhos foram muito inferiores ao dos cereais”, alerta a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), no seu último relatório anual sobre as perspectivas alimentares.
“Provavelmente, esta situação irá levar, na próxima época, a algum abandono das oleoginosas à medida que os agricultores se viram para culturas cerealíferas mais lucrativas, uma mudança que exarcerbará ainda mais os desequilíbrios já existentes, sobretudo nos mercados dos óleos vegetais, que têm assistido a um crescimento da procura mais rápido que o da oferta”, refere ainda a FAO.
Esta situação irá também ter efeitos “na carne e nos produtos lácteos por via das rações e as expectativas do aumento destes custos ameaçam adiar a recuperação do sector do gado e da carne”, acrescenta ainda esta agência das Nações Unidas. E as previsões para 2007 não são melhores, já que o aumento da procura irá forçar ainda mais os preços, mesmo que a produção aumente, sublinha esta organização.
Foi a indústria das rações, que está no primeiro degrau da indústria agro-alimentar, que primeiro começou a alertar para as implicações da corrida aos biocombustíveis feitos à base de culturas alimentares, sobretudo cereais.
“Estamos muito preocupados com a situação porque os custos das matérias-primas estão a subir”, diz Jaime Piçarra, da comissão executiva da Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA).
“O aumento das metas [de incorporação de biocombustíveis na gasolina e gasóleo] a nível europeu e nacional está a criar uma pressão muito grande e as autoridades têm de acautelar estes impactos, a menos que o consumidor esteja disposto a pagar por estes custos extraordinários”, adianta Piçarra.
Em meados do ano passado, um estudo dos analistas da Goldman Sachs para a Unilever, Nestlé e Cadbury dava já conta das preocupações das indústrias face ao aumento dos preços do milho, trigo e açúcar, que estão na base dos seus chocolates ou cereais matinais. Para fazer frente a isto, algumas empresas, como a Heinz, estão a tentar poupar noutros custos fixos, como as embalagens, noticiou na altura o Financial Times.
Os alertas surgem de muitos lados. O grupo norte-americano Tyson Foods avisou, no final do ano passado, que a escalada do preço do milho irá levar a aumentos no preço da carne e de outros géneros alimentícios. Em Janeiro, a mesma empresa anunciou que iria investir em gado na Argentina, o que levou alguns analistas a recearem que esta corrida aos biocombustíveis acabe por empurrar a produção de carne para outras paragens, noticiou o Wall Street Journal
Na semana passada, foi o responsável da Heineken, Jean-François van Boxmeer, que chamou a atenção para o abandono de culturas como a cevada, essencial para a cerveja, para dar lugar ao milho e colza. Começa-se a assistir a “uma mudança estrutural” nos mercados agrícolas europeus e norte-americanos, disse este dirigente, citado pelo FT.
Os próprios produtores de etanol norte-americanos estão a começar a ficar preocupados. O aumento do custo da matéria-prima e a redução recente do preço do petróleo está a tornar o seu negócio menos interessante, alertou a Archer-Daniels-Midland Co, uma das maiores indústrias transformadoras, a nível mundial, de soja, milho, trigo e cacau.
Uma falsa questão, argumentam defensores
A disputa entre biocombustíveis e alimentos é vista, por muitos, como um falso dilema. O aumento da produtividade das culturas, conseguido com inovação e biotecnologia – uma questão no entanto controversa na Europa -, o envolvimento de agricultores residentes em áreas marginais e que podem ser atraídos pelo aumento do rendimento e a reacção dos mercados a estas flutuações, corrigindo-se preços e subsídios, são respostas ao problema que o desenvolvimento dos biocombustíveis poderá oferecer.
“É óbvio que há uma competição pelas culturas entre a alimentação e a energia mas a política de preços poderá ir corrigindo o problema”, defende Castro Guerra, secretário de Estado da Economia. E este dilema poderá sempre “ser moderado por uma política fiscal”, adianta.
E os mais pobres, que seriam os mais atingidos pelo aumento de preços dos alimentos, poderiam vir a beneficiar de uma revitalização do mundo rural, contrariando-se o abandono. Este argumento ganha toda a sua força num cenário de combustíveis de segunda geração em que tudo o que sai do chão pode ser usado nos tanques.
“O mundo não tem um problema de carência de alimentos mas sim um problema de distribuição de alimentos”, diz, por seu lado, Humberto Rosa, secretário de Estado do Ambiente, que defende que há lugar para que parte da produção agrícola, impulsionada por novos desenvolvimentos técnicos, possa responder ao desafio.
Com a barriga a dar horas, López que lá saber da promessa de que o mercado lhe irá resolver o problema. Hoje, só sabe quantas moedas retira do seu bolso para conseguir levar para casa algo de que não consegue abdicar. São já demasiadas.
Mais a norte, Smith também não abdica dos seus hábitos. O automóvel é quase uma extensão do seu corpo mas agora, este velho vício, parece-lhe mais leve. De consciência aliviada, instala-se ao volante. Liga o rádio e segue a assobiar.
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