|
Os amigos da família não se fazem rogados para partilhar pormenores banais sobre Dorothy Emma Howell Rodham. Gosta de ler. Gosta de viajar sozinha. Adora ir ao jardim zoológico.
Terra-a-terra e decidida, Dorothy Rodham não se parece muito fisicamente com a sua filha, a senadora Hillary Rodham Clinton. Mas mesmo que se parecesse poucas pessoas a reconheceriam, pois só raramente aparece em eventos públicos. Uma das raras vezes em que apareceu, no último Verão - durante a apresentação pública de dois retratos da sua filha e do seu genro na Smithsonian Institution - Dorothy, que tem 88 anos, sentou-se discretamente na primeira fila, agarrada ao braço da neta.
Quando perguntaram ao Presidente Bush quem era o seu filósofo favorito, ele respondeu que era Jesus Cristo - uma resposta reveladora que se transformou numa parte essencial da sua biografia. Num debate recente entre membros do Partido Democrático, Hillary deu uma resposta igualmente reveladora quando lhe perguntaram qual considerava ter sido o momento decisivo da sua vida, aquele que a decidiu a lançar-se na corrida presidencial. Hillary respondeu que aquilo que a tinha transformado na pessoa que ela é hoje tinha sido o movimento dos direitos das mulheres e a inspiração da sua mãe.
"Em termos pessoais, acho que devo tudo à minha mãe, que nunca teve oportunidade de entrar na universidade e que teve uma infância muito difícil, mas que me fez acreditar que eu podia conseguir tudo aquilo em que empenhasse", disse Hillary.
Apesar desta resposta, catorze anos depois de Hillary Clinton ter entrado na Casa Branca com o seu marido e de se ter tornado mundialmente famosa, a mulher que ela identificou como a sua influência mais marcante continua a ser um mistério.
Hillary Clinton, que se tornou famosa pela forma como conseguiu manter a sua filha Chelsea longe do escrutínio público, é ainda mais protectora da mãe do que da filha. A mãe não dá entrevistas nem se deixa fotografar - e nas entrevistas que Hillary dá recusa-se a abordar o tema.
Ao contrário da extravagante Virginia Clinton Kelley, que representou um papel importantíssimo na formação de Bill Clinton, moldando um homem socialmente extrovertido e treinado para ser presidente, Dorothy Rodham tem-se ficado pelos bastidores da carreira da sua filha.
Hillary costuma descrever a sua infância no Midwest como se tivesse saído directamente da série televisiva dos anos 50 Father Knows Best. Mas quando fala da vida da sua mãe o retrato não é tão cor-de-rosa.
"Ainda me espanto quando penso na mulher afectuosa e sensata em que a minha mãe se tornou, apesar de ter tido uma infância tão solitária", escreveu Clinton na sua autobiografia, Living History.
Nascida no seio de um casamento disfuncional entre dois pais infelizes que se viriam a divorciar em 1927, Dorothy Howell foi viver com os seus avós quando tinha oito anos. O resto da história parece tirado de um romance de Dickens. Uma vez que a avó a apanhou a bater às portas dos vizinhos para pedir guloseimas, durante o Halloween, obrigou-a a ficar de castigo no quarto durante um ano, saindo à rua apenas para ir à escola. Dorothy saiu de casa da avó aos 14 anos, pelos seus próprios meios, e arranjou emprego a tomar conta de crianças.
Hillary tem resistido a todas as tentativas que têm sido feitas para psicanalisar a sua vida. Uma biografia escrita por Gail Sheehy, publicada em 1999, Hillary"s Choice, que a retratava como uma rapariga empenhada em impressionar um pai dominador e que aprendeu a suportar o sofrimento de um mau casamento com a sua submissa mãe, foi criticada pelo seu gabinete como estando pejado de inexactidões.
Mas entre os muitos retratos positivos que tem feito da sua família próxima, Hillary Clinton também tem dado, em discursos e no seu livro, um retrato tridimensional da sua mãe que nos ajuda a compreender a sua visão do mundo.
Força tranquila
Dorothy Rodham era uma democrata, apesar do conservadorismo do seu marido, e uma mãe de família com um forte sentido do dever, que inculcou na sua filha mais velha (e a única rapariga) um imenso amor pelo estudo e uma enorme curiosidade pelo mundo.
Depois de ter vivido à sua custa durante os anos de liceu, Dorothy teve notícias da mãe, que lhe pediu que regressasse a Chicago. Dorothy agarrou com as duas mãos a oportunidade de refazer os laços com a mãe, mas apenas para descobrir que esta, que se tinha casado de novo, só estava interessada nela como sua criada.
Hillary conta que perguntou uma vez à mãe por que razão é que tinha voltado. "Eu queria com tanta força que a minha mãe me amasse", respondeu Dorothy, "que tinha de aproveitar a oportunidade e descobrir a verdade. E, quando vi que não era assim, já não tinha nenhum sítio para onde ir."
Hillary Clinton reserva palavras especialmente duras para esta avó, descrevendo-a como "uma mulher fraca e egoísta, que vivia para as telenovelas e desligada da realidade". O seu desprezo por este tipo de pessoa, somado a tudo aquilo que ouviu da sua mãe sobre as consequências do divórcio e do abandono da família, parece encaixar-se perfeitamente na imagem de disciplina e de persistência matrimonial que se tornou a sua segunda natureza.
Em 1942, a mãe de Hillary casou-se com Hugh Rodham, um enérgico e brusco caixeiro-viajante, e Hillary Rodham nasceu cinco anos depois. Os relatos do casamento referem-se com frequência a um pai com uma vontade de ferro e a uma mãe cuja força tranquila garantia a estabilidade familiar.
No livro que publicou no ano passado, A Woman in Charge: The Life of Hillary Rodham Clinton, Carl Bernstein descreveu Hugh Rodham como "duro, provocante e violento" - e não o firme-mas-carinhoso patriarca de que Hillary fala. Segundo Bernstein, para a mãe de Hillary, a vida com Hugh Rodham foi uma "dolorosa humilhação". "A sua ira era assustadora quando explodia e a família parecia por vezes à beira da desagregação", escreve Bernstein.
De acordo com vários relatos, era Dorothy Rodham quem fornecia o estímulo intelectual, a racionalidade e a estabilidade à vida familiar.
Hillary descreve a sua mãe como uma "clássica dona de casa" no meio do seu bairro suburbano de Park Ridge, uma mulher que passava o seu tempo a cozinhar, a lavar e a limpar.
Bate-lhe também
Há um episódio mãe-filha que se distingue dos restantes e que se transformou num elemento central da lenda que envolve Dorothy - e que sugere a tenacidade que ela terá querido transmitir à sua filha, que tinha quatro anos na altura em que o episódio teve lugar. Dorothy tornou a contar a história durante um programa de Oprah Winfrey onde apareceu com a filha, em 2004 - e que foi a última entrevista que concedeu até hoje.
"Tínhamo-nos mudado para uma casa nova, num novo bairro, e a Hillary costumava entrar em casa a chorar e a gritar, a dizer que um grupo de miúdos que tinham mais ou menos a idade dela lhe tinham batido. Nesse grupo havia uma miúda que tinha exactamente a idade de Hillary, Suzy, que vivia do outro lado da rua", contou Rodham. "Um dia eu disse-lhe "Hillary, isto não pode continuar. Tens de lhes mostrar que não tens medo e tens de acabar com isto. Vai ter com ela, mostra-lhe que não tens medo e se ela te bater outra vez - o que a outra miúda costumava de facto fazer - bate-lhe também"".
Clinton, na sua versão, conta que a mãe lhe disse que "naquela casa, não havia lugar para cobardes". "Anos mais tarde ela disse-me que ficou a espreitar por trás da cortina, enquanto eu me enchia de coragem e atravessava a rua", escreveu Clinton nas suas memórias. "Voltei uns minutos depois, orgulhosíssima da minha vitória."
A moral da história - que a sua mãe a ensinou a responder aos ataques - reaparece nas declarações dos amigos da família, que apontam a tenacidade e o espírito de sobrevivência como um dos principais traços que mãe e filha partilham.
"É um sentimento de auto-confiança", diz Betsy Ebeling, uma amiga de infância de Hillary, que se recorda do cuidado que a mãe da sua amiga punha em alimentar a auto-estima da filha.
"Dorothy tinha uma visão muito avançada para o seu tempo, achava que as crianças tinham de se sentir bem na sua pele", diz Patty H. Criner, uma amiga de Rodham em Little Rock. "Dorothy era uma boa mãe, passava imenso tempo com os filhos, dava-lhes imensa atenção e sempre achou que era preciso deixar que as crianças desenvolvessem a sua personalidade e pensassem por si próprias, como indivíduos autónomos, o que reforçava imenso a sua auto-confiança."
Mas, ao mesmo tempo, os amigos mais próximos fazem questão de dizer que Rodham não exigia mais dos seus filhos do que é normal qualquer pai fazer. "Acho que ela sempre pensou que os filhos podiam conseguir tudo aquilo que quisessem", diz Criner.
Ebeling recorda que, durante a sua infância, Dorothy "gostava muito de ficar em casa" e encorajava a sua filha a ler. "Tenho a certeza de que havia imensos miúdos da nossa idade com mães que passavam a vida em reuniões da associação de pais e com uma vida social muito activa", mas Dorothy "não era assim".
Dorothy Rodham tem exprimido muitas vezes a sua ambivalência em relação às pressões da vida pública. Na Oprah, perguntaram-lhe se gostaria que a sua filha se candidatasse à presidência. "Acho que não desejava a ninguém a carga de trabalho diário que isso deve representar, para além de tudo o mais", respondeu Dorothy, "mas ela seria uma grande presidente. Tenho a certeza disso".
Feminista?
É difícil dizer se esta mulher, que sempre assumiu um papel tão tradicional na sua vida, partilha a visão feminista da sua filha.
"É verdade que ela não trabalhou fora de casa, mas Dorothy teve uma experiência de vida riquíssima e aproveitou ao máximo as suas experiências como mãe e, quando os filhos já estavam criados, continuou a tirar o máximo proveito da vida", diz Melanne Verveer, uma amiga de Hillary que foi a sua chefe de gabinete na Casa Branca. "Será que ela acreditava que todos os seus filhos deviam ter as mesmas oportunidades? Certamente. Será que isso faz dela uma feminista? Tudo depende de como se define a palavra. Mas eu diria que ela é uma mulher moderna."
Dorothy nunca falou publicamente sobre o casamento da filha, ainda que pouco antes do escândalo que levou ao pedido de impeachment de Bill Clinton ela tenha manifestado o seu apoio ao Presidente.
"Toda a gente sabe que só há uma pessoa no mundo que pode dizer realmente a verdade sobre um homem e essa pessoa é a sua sogra", dizia Dorothy numa declaração divulgada durante a Convenção Nacional Democrática de 1996.
Nessa altura, o caso entre Bill Clinton e Monica Lewinsky já tinha tido lugar, ainda que só fosse tornado público passado 18 meses, expondo a relação do casal Clinton a uma dura prova.
Durante os anos da sua filha como primeira-dama, Dorothy continuou a viver em Little Rock, para onde ela e o seu marido se tinham mudado em 1987, para ficar mais perto do casal Clinton.
Depois de Hillary ter sido eleita para o Senado, em 2000, Dorothy mudou-se para Washington e recebeu a sua filha no seu apartamento enquanto a casa dos Clinton era renovada. Agora Dorothy vive com a senadora de Nova Iorque na casa dos Clintons, em Washington.
Segundo contam os amigos, Dorothy costuma passar algum tempo com o filho Tony e o neto Zachary. E está sempre em contacto com a neta Chelsea, que vive em Nova Iorque.
"Ela gosta de ficar perto do seu ninho", diz Criner, "ao pé dos filhos e dos netos."
|