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A interrogação se os americanos vão eleger a primeira mulher ou o primeiro negro para a Casa Branca já não tem novidade. A nova pergunta é: estarão prontos para a estreia de uma primeira-dama negra? Se for Michelle Obama, a quem as revistas muitas vezes chamam "uma princesa africana", sublinhando o seu "porte real", a resposta parece certa.
Alta e longilínea, como os bonecos que os estilistas costumam desenhar dos seus modelos (tem perto de 1,80m), Michelle tornou-se, nos últimos tempos, uma estrela de pleno direito, ao lado de Barack. Elegante num fato cor-de-rosa ou num simples vestido preto com o decote decorado por uma fiada de pérolas presidenciais, ou até numa camisa branca sem alças e calças claras de corte masculino, tem sido vê-la a encher os ecrãs nos comícios, lado a lado com as mulheres da família Kennedy, ou com Oprah Winfrey.
Ou então sozinha, exortando os eleitores a votarem no marido - um homem como todos os outros, diz ela, que não arruma a manteiga depois de a espalhar nas torradas, mas ainda assim alguém especial, que pode mesmo fazer a diferença. "Estou ansiosa por mudança - agora. Não daqui a oito anos, não daqui a 12, mas já. Não temos tempo para esperar", costuma ela dizer, constatou a revista Vanity Fair.
"Ela toca as mesmas notas que ele - surgem as palavras "esperança", "mudança" e "sonho", como seria de prever - mas tem-se a sensação de que ela é o centro de controlo em terra para as ideias elevadas do marido, a prosa para a poesia dele. Ela tem um estilo mais directo, o da mulher comum, embora uma mulher muito inteligente e com muito sucesso", escreveu sobre Michelle Obama a colunista do jornal Baltimore Sun Jean Marbella. Essa ligação à terra, a franqueza do discurso e também um sentido de humor que não poupa as pequenas misérias de Barack - como ele ressonar e cheirar um bocado mal de manhã, ao acordar - fazem com que muitos digam que Michelle é a arma secreta do candidato nesta eleição.
"Uhhhh, estás a brincar!" Ela começou discreta na campanha, confessando a sua relutância inicial quanto à enorme aventura em que o marido se lançou, apenas dois anos depois do que já tinha sido um grande tremor de terra na sua vida de família - a eleição de Barack para o Senado, que fez com que ela ficasse em Chicago com as duas filhas (Malia, de nove anos, e Sasha, de seis), enquanto ele passava os dias úteis em Washington.
Quando o marido lhe disse que estava a pensar candidatar-se à presidência dos Estados Unidos, ela ficou espantada. "Só pensei - uhhhh, estás a brincar! Não, não é para já, pois não?", contou Michelle à Vanity Fair. "Tínhamos de falar. Tinha de compreender, com o coração e com a cabeça, como é que isto iria funcionar para mim, e se eu estaria confortável. Ele não se candidataria se não tivesse a certeza de que eu me sentia bem com isso, porque é um grande sacrifício."
Portanto, a candidatura de Barack Obama esteve sob o fio da navalha, enquanto Michelle concentrou nela os holofotes da razão e da emoção, que fazem dela uma advogada especialista em resolver assuntos complicados no hospital académico da Universidade de Chicago - do qual é vice-presidente - e que lhe valeu o cognome The Closer entre o staff da campanha. "Toda a gente na família tem medo dela", brincou o irmão de Michelle, Craig Robinson. Ela não gosta de perder - era por isso que não gostava de participar em jogos de equipa quando era pequena, e ainda amua um bocado se perde num jogo de tabuleiro, mesmo com 44 anos feitos, contou o irmão à Vanity Fair.
Depois de aceitar a ideia de que o seu marido, uma daquelas pessoas que parece fadada para fazer algo de importante na vida, tinha um calendário surpreendentemente mais acelerado do que ela esperava, Michelle empenhou-se a fundo.
"Para mim, o que se está a passar é que estamos a candidatar-nos a Presidente dos EUA. Eu, Barack, Sasha, Malia, a minha mãe, o meu irmão, as irmãs dele - estamos todos na corrida", diz Michelle Obama.
A mostra de que não tinha entrado nesta violenta competição para perder é que, uns dias antes de Barack anunciar que se candidatava, ela o obrigou a deixar de fumar. "Usou pensos de nicotina para combater o vício?", perguntou a Vanity Fair. "Michelle Obama!", respondeu com uma gargalhada o cunhado. "Ela é que é um grande emplastro!"
Uma mulher comum Michelle tem sido importante para captar o voto feminino para Barack Obama - e em especial o das mulheres negras, divididas entre votar na primeira mulher com hipóteses reais de se tornar Presidente ou no primeiro negro que pode mesmo chegar à Casa Branca.
Ela apresenta-se como uma mulher comum, que conhece os problemas de conjugar trabalho, carreira, educação dos filhos, dar-lhes o carinho necessário para construir um lar estável e acolhedor. Quando participa em acções de campanha, costuma apanhar um avião de madrugada e apanhar outro de volta para Chicago, antes do jantar, para chegar a tempo de aconchegar as filhas antes de dormir. "Todas as manhãs quando acordo penso como é que hei-de conseguir o próximo pequeno milagre de chegar ao fim do dia", cita-a o New York Times.
Fazer alguma coisa para corrigir os desequilíbrios que a vida moderna provoca nas famílias é precisamente um dos seus objectivos se chegar a primeira-dama. De resto, diz não gostar da política: para ela é um jogo que não gosta de jogar. Tal como o marido, concorre com base na sua biografia, apresenta como credenciais a sua experiência de vida.
O objectivo dela sempre foi ter uma família que apoiasse ao máximo os filhos - como o que ela teve no pequeno apartamento numa zona pobre de Chicago onde cresceu. O pai trabalhava para a companhia das águas, e tinha esclerose múltipla. A mãe era secretária. O meio económico de onde é originária não fazia prever que acabasse por se formar em Direito em Princeton e Harvard, duas das mais prestigiadas universidades norte-americanas. Mas ela era uma criança sobredotada, descoberta aos quatro anos, e teve acesso a várias bolsas de formação.
Conheceu Barack no escritório de advocacia de Chicago onde estava a trabalhar e para onde ele foi estagiar. "Este tipo deve ser esquisito", recorda ter pensado ao ler o seu nome. Para ele, foi amor à primeira vista, mas ela resistiu aos seus convites para sair durante um mês. No entanto, passado pouco tempo, já eram de tal modo uma equipa, que quando Michelle estava a pensar sair da empresa para ir trabalhar para o município, pediu à futura chefe que recebesse Obama, que era já seu noivo, porque queria a opinião dele antes de aceitar a oferta. Casaram-se em 1992.
Agora ou nunca Se Hillary e Bill Clinton se tornaram o paradigma do casal político - elejam um e levam outro de graça, brincava Bill antes de ser eleito pela primeira vez, em 1992 -, Michelle e Obama são uma versão menos politizada de um casal que actua como uma equipa.
Mas ela não representa o papel tradicional da mulher de um político: ninguém a apanhou com o olhar adorador que Nancy Reagan exibia sempre, sem falta, quando Ronald discursava. Pelo contrário: insiste em apresentá-lo como uma pessoa comum: um marido que deixa a meias no chão em vez de as pôr no cesto da roupa suja, ou que uma vez se foi embora, deixando-a a braços com uma inundação caseira provocada por uma sanita entupida. A ideia é mostrar que ninguém é perfeito, e que mesmo os melhores líderes têm falhas. "Adoro o meu marido, acho que é um dos homens mais brilhantes que conheci.
Mas não é perfeito e não quero que o mundo o veja como perfeito", explicou à Vanity Fair. "Acho que um dos nossos problemas como nação é que queremos líderes com qualidades que não são realistas."
Estes arroubos de humor sarcástico, porém, já lhe valeram críticas. "O meu marido adora o meu sentido de humor e gozamos um com o outro sem dar tréguas. Mas sou um bocado sarcástica e sinto que tenho de me controlar", justificou-se.
Isso não a impede de dizer que terá de deixar a carreira de lado se Barack for eleito. O hospital onde trabalha atende pessoas sem seguro de saúde e tenta envolvê-las em programas de cuidados de saúde preventivos. "Se eu sentisse que era mais importante, era o que faria. Mas o principal objectivo é ter um bom Presidente - alguém em quem acredito, como Barack, que vai mesmo concentrar-se nas necessidades das pessoas comuns. Fazer com que ele seja eleito é a melhor maneira de conseguir o que estou a tentar obter no hospital", disse Michelle à Vanity Fair.
E se ela está na corrida, é mesmo para ganhar, e é para ganhar desta vez: "Para mim, é agora ou nunca. Não vamos continuar a concorrer uma e outra vez. Agora estamos frescos, abertos, ousados, sem medo. Isso vai-se perdendo com o tempo. Barack ainda não é cauteloso; está pronto a mudar o mundo e todos precisamos disso. Se for para ir com cautelas, prefiro que seja outro a avançar", disse à revista americana. A candidatura "tem um grande factor de inconveniência, e se vamos desenraizar as nossas vidas, é para mudar de forma radical o significado de ser Presidente dos Estados Unidos."
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