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Manoel de Oliveira - 100 anos
Criado sexta-feira, 14 de Novembro de 2008
Última actualização quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009
 
Jean-Paul Pelissier/Reuters (arquivo)

Entrevista
Ninguém tem medo da morte. É a entrada para o absoluto
Por Sérgio C. Andrade
11.12.2008
O desafio foi estabelecido à partida: uma entrevista a Manoel de Oliveira em que não lhe seriam feitas perguntas sobre os seus filmes nem sobre cinema, temas por de mais glosados nas suas conversas com os jornalistas. Seria uma conversa "sem rede", nem outro programa que não fosse inquirir o realizador nascido no Porto faz no próximo dia 11 de Dezembro 100 anos sobre como ele vive e convive com as questões do nosso tempo. Mas também fazê-lo recuperar memórias da sua biografia mais afectiva e mais longínqua: a família, os amigos, as corridas de automóveis, os tempos difíceis dos longos anos em que esteve sem poder filmar, as viagens...
 

Como era inevitável, o cinema surgiu logo ao dobrar das primeiras palavras, quando o realizador referiu que acabava de chegar de Rimini, em Itália, onde no fim-de-semana anterior tinha ido receber um prémio-homenagem da Fundação Fellini. No final da entrevista, Manoel de Oliveira desvendou mesmo, da mala de viagem ainda por abrir, o desenho-gravura que trouxera da terra do autor de Amarcord, com o seu traço inconfundível. O cinema esteve, pois, sempre presente, mesmo quando dele se não falou. Ou não seja (ou não continue a ser) o cinema a razão da vida de Manoel de Oliveira. Como, aliás, se pode verificar, por estes dias, na Baixa de Lisboa, onde o realizador filma Singularidades de uma Rapariga Loira, sua primeira incursão no imaginário literário de Eça de Queirós.

Já mais do que um crítico estrangeiro classificou Manoel de Oliveira como "um extraterrestre". Agrada-lhe esta imagem?
Com certeza que agrada. Um extraterrestre é alguém fora do comum. De um artista - da sua singularidade, de se tratar de alguém original -, diz-se que é extraterrestre. Creio que é este o sentido da palavra.

De que planeta é que gostaria de vir ou a qual se imaginaria a pertencer?
Não penso nisso. A gente vem, por virtude da natureza. A natureza é sábia na construção do universo e nós somos também filhos da natureza. Ninguém nasce por vontade própria. Enfim, aquilo que a natureza nos dá, se não estivermos satisfeitos, é a possibilidade de liquidarmos a nossa vida. Fora isso, obriga-nos a viver. Para isso, dotou-nos da fome, para nos obrigar a comer, e dotou-nos do desejo da mulher, para dar continuidade à espécie. Só para estes dois fins. Os pássaros correm o ar à procura de alimento, de manhã até à noite...

Parece uma coisa tão simples e, afinal, é a base da civilização.
Não é a base da civilização. Não tem nada a ver com isso. Pelo contrário: o homem destrói o processo natural, com a poluição, com a bomba e tudo o que é atómico, que é um lixo que destrói tudo. Isso é que é a civilização. O resto é a natureza, que tem as suas leis e delas deriva a ciência. Mas a civilização é que estraga isso... Os índios, sim, eles é que defendem a natureza, porque sabem que dependem dela. A civilização predominante é agora a europeia, em todo o mundo: na China, no Japão, na América... É a nossa civilização ocidental, que vem desde a Grécia e de Roma, que é mediterrânica e greco-latina, embora, depois da derrota da Invencível Armada, tivesse passado da Península Ibérica para a Inglaterra, e, depois da Segunda Guerra Mundial, passou de Londres para Washington, onde agora continua...

Acompanhou as eleições americanas. Agradou-lhe assistir à vitória do Obama?
O que me agradou mais, verdadeiramente, foi o contexto profundamente democrático, em que todo o processo se desenvolveu.

O facto de se tratar do primeiro Presidente negro na história da América não lhe parece importante?
Era algo a que se haveria de chegar, mais dia, menos dia. Não foram os negros que trabalharam a América?...

Mas, a certa altura, pensou-se que poderia ser Hillary Clinton a ganhar, e ela seria, então, a primeira mulher na presidência. Preferia esta situação?
Eu não tenho de ter preferência. Assisto a uma realidade. Vejo o que acontece. Mesmo que preferisse, isso seria inútil. Mas quem tem um sentimento político profundo é que toma posições. Mas o meu sentimento profundo é humanista, não político.

A política nunca o interessou muito.
A política é uma coisa que tem de interessar as pessoas, porque nós vivemos debaixo dela, portanto estamos interessados na acção dela: que não nos incomode, que não nos perturbe, que não nos chateie...

Passou, durante a sua vida, por vários momentos históricos e por vários sistemas políticos. Já disse que chegou a acreditar no comunismo, nos seus anos de juventude...
Sim. Na juventude, e nos movimentos intelectuais que eu conhecia, havia uma propensão de simpatia pelo comunismo. Mas, à medida que se começou a conhecer os factos que se apresentavam na União Soviética, os intelectuais, e as pessoas, começaram a mudar. O que nos atraía, no comunismo, não era propriamente o comunismo, era mais o humanismo - a ideia humanista que parecia aí revelar-se. Até chegavam a dizer que Cristo era comunista, pela sua profunda defesa do humanismo. Mas, com o Estaline, a questão humanista não se punha.

Qual foi o acontecimento histórico que o levou a desacreditar no comunismo?
Não há um acontecimento exacto. Há uma soma e uma continuidade das coisas...

Voltando um pouco atrás. Disse que somos um capricho da natureza e que o facto de estar a fazer 100 anos não é proeza sua...
Nós não somos responsáveis pela idade que temos nem por vivermos mais ou menos tempo. Há o capricho da natureza, que dá a uns o que tira a outros. Por razões que ignoramos. Somos responsáveis, quando muito, no caso do suicídio.

Já disse que chegou a pôr a hipótese de se suicidar...
Não cheguei. Essa hipótese nunca se põe. A gente pensa nisso, apenas. Por exemplo, quando eu dava saltos, de cerca de dez metros, para o mar, na Foz [do Douro], muitas vezes pensei isso: uma coisa é subir a prancha, olhar lá para baixo e pensar "eu podia atirar-me daqui abaixo"; outra coisa diferente é eu subir para a prancha e atirar-me. É a diferença entre alguém pensar no suicídio e suicidar-se. É muito distinto.

Mas não acha que também se ajudou a si próprio a chegar a esta idade: pela forma como viveu, cuidando da saúde e da sua condição física, praticando desporto. Não teve essa preocupação?
Não tive muito. Fiz muitas asneiras. Nunca tive um desastre mortal de automóvel, e hoje surpreendo-me: o que tive, realmente, foi muita sorte. Tive o meu anjo da guarda protector, que é o destino. O anjo da guarda e o destino são uma e só coisa. É por isso que o anjo da guarda aparece no Cristóvão Colombo - O Enigma.

Alguma vez, quando era jovem, pensou em chegar ao século XXI?
Não. Não pensava nisso. Pensava noutras coisas, no que tinha de fazer no dia seguinte ou futuramente. Mas nunca deixei de ter a consciência da morte. Tive-a sempre, desde menino. Desde quando eu subia ao telhado, na garagem lá de casa, e me dizia: "Agora podia saltar lá para baixo!" Mas não saltava, porque era muito perigoso; podia-me falhar o pé ou até cair de cabeça (risos).

Falou nos desastres de automóvel. Nas suas aventuras como piloto, viveu alguma situação mais perigosa?
Só tive um único desastre de automóvel, quando experimentava um carro de corrida, em que tinham feito uma comunicação de água para melhor arrefecimento do motor. Mas não vedaram suficientemente a braçadeira. Eu precisava de aquecer o motor e andava na Circunvalação para trás e para diante, e tinha de acelerar com força, para o motor aquecer. E ele aqueceu, até de mais. Soltou-se, dá-se uma nuvem e o carro bate de lado contra um sujeito, que morreu. E eu fui preso. Depois fui julgado e fui solto. Foi, acho eu, em 1931. Tenho esse remorso, de involuntariamente ter matado uma pessoa. Deveria ser um operário, que vinha do trabalho, a pé, certamente para apanhar a camioneta para casa...

Dos automóveis que teve, de qual guarda melhores recordações?
Do primeiro BMW que apareceu em Portugal, em 1936 ou 1937, e que fui eu que comprei. Era um carro extraordinário, pela sua doçura.

Li algures que, a certa altura, abandonou as corridas de automóvel, como compromisso assumido com a D. Maria Isabel quando casaram, em 1940. É verdade?
Sim. Realmente já não me interessava andar a correr de automóvel. Era uma situação diferente.

Mas decidiu abandonar as corridas por medo dos acidentes?
Não. Era uma questão natural. A esposa ficaria sempre em cuidado, e não haveria necessidade disso. Mas eu continuei a acompanhar e a auxiliar muito o meu irmão Casimiro, que começou a correr nessa altura. Isto foi, creio, ao abrir dos anos 40, quando ele ganhou a primeira corrida na inauguração do Circuito da Boavista, no Porto.

Mas acabou por regressar também às corridas nos anos 50, quando fez uns ralis.
Mas o rali era menos perigoso. Durante o meu tempo, não houve cá nenhum desastre mortal. O meu irmão teve três, seguidos, mas não foram mortais - um deles foi na mesma corrida em que o Vasco Sameiro também teve um desastre. Mas o último do meu irmão Casimiro foi muito grave: em consequência dele, perdeu, em parte, a memória. Foi por causa de um defeito daquele modelo de Ferrari que ele conduzia. Foi ao volante deste modelo que, lá fora, morreram os italianos [Alberto] Ascari [1918-1955] e [Eugénio] Castellotti [1930-1957]. Era um carro que tinha um defeito e, na curva, tendia para o interior e não para fora.

Antes de casar, diz-se que era um dandy, um playboy. Mudou o seu comportamento depois do casamento?
Todos os jovens, normais, são playboys. Ou quase, ou muito, ou menos ou mais...

No seu caso, era menos ou mais?
Nesse tempo, as coisas eram muito diferentes do que são hoje: uma rapariga que não estivesse virgem, não havia nenhum rapaz que quisesse casar com ela. Ou, se isso acontecia, era um caso extraordinariamente raro. E os anjos salvadores das virtudes das meninas de família eram as prostitutas, às quais a juventude recorria para satisfazer os seus normais desejos sexuais.

Depois de casar, alterou o seu comportamento?
Naturalmente que sim. Quando se casa, a não ser que se case por interesses outros, que não sejam o da ligação amorosa... Mas, quando há uma ligação amorosa, há a diferença entre o homem ser solteiro, livre, e ser um homem casado, que já deixou de ter essa liberdade.

Agora está na ordem do dia o casamento homossexual. Acha que os homossexuais devem ter direito a casar-se?
O que sei é que não é normal a ligação mulher com mulher e homem com homem. Mas é tolerável. Eles que façam lá o que entenderem. É que o casamento tem um único fim: preservar a continuidade da espécie.

Das pessoas com quem privou ao longo da vida, de qual delas tem mais saudade?
A pessoa que mais estimei, em primeiro lugar, foi o meu irmão Casimiro. Eu tinha outro irmão, o Francisco, que também estimava muito, mas este era bastante mais velho, fazia uma diferença de oito ou nove anos. O meu irmão Casimiro só era mais velho do que eu um ano e pouco. Éramos muito próximos. Frequentávamos os mesmos colégios e andávamos quase sempre juntos. Essa é uma saudade permanente, irreparável. Há, naturalmente, a saudade dos pais. Mas é normal os pais irem antes dos filhos. Agora, perder um irmão assim tão próximo, como este, é uma dor que está sempre presente. Nós éramos tão próximos que chegavam mesmo a confundir-nos.

Aproveitavam essa situação para se fazerem passar um pelo outro?
Não. O meu irmão fazia-se passar [por mim], porque nas coisas desportivas que eu fazia, no atletismo, e mesmo no cinema, era mais conhecido do que ele. Mas como elas nos confundiam, e como ele era um conquistador nato... De maneira que, quando lhe interessava e alguma rapariga dizia que o conhecia, ele deixava-se passar por Manoel de Oliveira, até conseguir os seus fins.

Mas quem era o mais conquistador?
Era ele.

E o Manoel não aproveitava também a situação?
Nada disso (risos). Eu aproveitava o que era meu. Ele aproveitava o que era de ambos...

Mas, fora da família, das figuras dos intelectuais com quem privou, de quem guarda melhores recordações?
Com quem tive mais intimidade e com quem, verdadeiramente, eu comecei foi com o António Mendes. Quando principiei a filmar o Douro, Faina Fluvial, eu era já amigo dele, desde a patinagem no Palácio de Cristal e dos encontros no café Majestic. Eu procurava um operador e, um dia, encontrei-o no cinema e disse-lhe que estava inquieto porque precisava de um operador que fosse bom. Ele puxou da carteira e mostrou-me umas fotografias magníficas. Era um grande fotógrafo, ganhava prémios no estrangeiro, mas eu não sabia disso...
Quando fiz o Douro, Faina Fluvial, tive essa sorte de encontrar um fotógrafo de primeira ordem. Eu era muito novo, tinha 20 anos. O António Mendes era casado, e o irmão da mulher dele, um tal Camarinha - não o pintor, que eu também conhecia muito bem -, era um playboy, quase diria um profissional. O António Mendes disse-me que gostava de me apresentar ao cunhado, porque ele tinha uma ideia diferente do cinema. Apresentou-me e nós discutimos as nossas ideias. Naquela altura, eu defendia uma identidade própria do cinema, era qualquer coisa que se libertava da ganga teatral e literária e que, portanto, tinha a sua especificidade cinematográfica. Há até dois filmes que reflectem esta teoria, não apresentando qualquer legenda, numa demonstração de que as imagens eram auto-suficientes: O Último dos Homens [de F. W. Murnau, 1924] e A Última Tipóia de Berlim [de Lupu Pick, 1926] - este último passava-se na altura do aparecimento dos táxis, que vieram tirar o lugar aos trens puxados a cavalo, que também existiam no Porto. Um dia, um cocheiro dos trens chegou à praça onde estavam os táxis, pegou nas fezes do cavalo e pô-las no tampão do radiador do carro. Era a sua forma de manifestar o desprezo por aquilo que lhe estava a tirar o emprego...

Sabe-se que teve imensos projectos que não pôde realizar, durante os anos do Estado Novo. Como sobreviveu durante esse tempo? Teve de viver da agricultura e da indústria...
Eu não vivia dos projectos. Eles é que viviam à minha custa - ou à custa do meu pai ou da minha mãe. O meu pai financiou o Douro, Faina Fluvial; a minha mãe deu-me cem contos para o Aniki-Bobó, e eu entrei com 50 contos dos meus honorários, ficando assim também co-produtor do filme. Mas eu era, ainda nesse tempo, muito ingénuo e confiante; era muito jovem, 33 anos, tinha acabado de casar, e o António Lopes Ribeiro aproveitou-se disso.
No antigo Hotel Tivoli, quando o filme estava acabado, disse-me: "Tu não vais querer que eu ponha lá no genérico 'uma co-produção com Manoel de Oliveira', para não sobrecarregar os títulos." Eu, confiadamente, aceitei. Assim, o filme figura só como "uma produção António Lopes Ribeiro". Eu, na altura, não sabia o que isso me ia prejudicar. Mas tenho cartas a confirmar isso e, numa delas, ele diz: "Eu sou o produtor do filme, tu és o realizador e também co-produtor."
A boa-fé é muito perigosa, é uma abertura a todo o tipo de vigarices. Por boa-fé, a gente confia, e o finório aproveita-se sempre dessa circunstância. Mas, por essa altura, até fiz algumas vendas cá e para o estrangeiro, que ele consentiu como compensação para esse meu contributo como co-produtor.

Sentiu-se enganado muitas vezes durante a sua vida?
Senti algumas vezes. As suficientes para ter, agora, este julgamento sobre a boa-fé (risos).

Como é que se dedicou, então, à agricultura e à indústria?
Isso foi durante o período de 14 anos em que não pude filmar, entre o Aniki-Bobó e O Pão, quando me cortaram qualquer ajuda do Governo para filmar. Trabalhei primeiro na indústria, onde trabalhava já no tempo do meu pai, e onde continuei também depois da morte dos meus pais e dos meus irmãos.
Muito mais tarde, numa quinta que a Maria Isabel herdara no Douro, da parte da mãe - que morreu dois meses depois do seu nascimento, com a pneumónica, ficando a filha a ser criada com uma tia, Carvalhais -, dediquei-me à lavoura, ou melhor, à vinha.
Nessa altura também se cultivava muito laranjeiras e milho. Estupidamente, agora as governações proíbem o milho e acaba por se passar fome. Aqui há tempos faltava o milho e ficou tudo aflito. Agora já se pode cultivar milho outra vez. É incompreensível este desprezo pela natureza, da qual nós dependemos inteiramente.

Durante a sua vida, houve inúmeras conquistas tecnológicas - os computadores e os telemóveis são apenas as mais recentes. Quais delas acha mais importantes?
As conquistas mais importantes, depois da Segunda Guerra Mundial, são as trágicas, as que destroem a natureza. Essa porcaria dos transgénicos, por exemplo, que estão sobrecarregados de químicos para que os bichos não lhes peguem. E quando os bichos não pegam, isso é um péssimo sinal. Dantes, até a fruta com bicho era mais cara do que sem bicho. As pessoas pensavam: "Se o bicho não lhe pega, é porque é mau!" Mas o homem pega-lhe. Porquê? Porque será mais inteligente do que o bicho?... E há agora essa coisa toda: a poluição do ar, do mar, da terra e por aí fora. E continuam a deitar fumo pr'aí. Até as raparigas novas, com 14, 15 anos, já fumam, no liceu.

Também foi fumador?
Sim. Fumei durante trinta e tal anos.

Por que é que deixou de fumar?
Porque estava rouco. Então tomava uma pastilha que me punha melhor, depois fumava um cigarro que me punha pior, depois voltava a tomar uma pastilha que me punha melhor, e depois fumava outro cigarro... Então disse: "Agora vou deixar de fumar três dias", e deixei. Depois veio um amigo visitar-me, lá na quinta do Douro. Sentei-me no sofá com ele, ele puxou dum cigarro para fumar, eu meti a mão ao bolso para puxar do meu - era um gesto natural. Levantei-me para ir buscar um maço ao quarto, mas então decidi deixar de fumar, e nunca mais peguei num cigarro. Quando fumei, eu não tinha, nem nessa altura havia, a consciência de que o cigarro fazia assim mal. Mas agora há. Até dizem que a maior parte das doenças do coração são derivadas do cigarro. E fumar é uma coisa que não sabe bem, ao princípio. Diziam-me: "Insiste, que acabas por gostar." Eu tinha 15, 16 anos, ia fumar para a horta e depois mastigava um bocado de couve para os meus pais não sentirem o cheiro...

Já sabemos que usa o computador para o seu trabalho. Adaptou-se facilmente?
O computador tem possibilidades de mais para aquilo de que eu preciso. Não quero saber coisas de computadores. Quero apenas saber o necessário para escrever os meus textos e as minhas planificações. O resto das capacidades dos computadores só me atrapalha.

E usa telemóvel?
Não uso, felizmente. É um vício. Ao contrário do que pensam, as pessoas perdem capacidade de comunicação. Eu fiz um filme sobre isso [a curta-metragem Do Visível ao Invisível].

Quantos países já visitou? Ou que país ou cidade, que não visitou ainda, gostaria de visitar?
Nunca fui à China, nem sequer a Macau, nem à Rússia. Mas já fui quatro ou cinco vezes ao Japão, sempre com a Maria Isabel, e ambos gostámos imenso do modo como sempre fomos bem acolhidos...
(D. Maria Isabel entra na sala, e na conversa, citando várias cidades e países onde se sentiram "muito bem recebidos"...)
E conheço a Finlândia, estive na Suécia, na Lituânia, na República Checa, na Roménia... Estivemos recentemente em várias cidades da América: Nova Iorque, Washington, Chicago, Boston e naquela cidade das bruxas, New Heaven, que é muito interessante pelas suas tradições. E também no Brasil, claro.

Qual é a cidade que mais lhe agrada, em todo o mundo?
(Pausa)... É o Porto. Tem umas características muito particulares, muito suas. Ou melhor, tinha. Estão agora a fazer força para tirá-las, ao contrário do que se faz lá fora. Mesmo às cidades que foram arrasadas pela guerra, como Varsóvia, na Polónia, que foi refeita tal qual era antes. O mesmo aconteceu em Berlim. Aqui destroem o que está feito para construir uma porcaria qualquer incaracterística, que não representa coisa nenhuma. Por exemplo, o que querem fazer no mercado do Bolhão é uma vergonha - querem meter lá um supermercado, ou outra borra qualquer, que tira todo o carácter à cidade e a modifica. Assim, as cidades confundem-se todas: a gente chega a uma cidade e já não sabe onde está. É tudo igual em toda a parte.

Viajar é importante para a sua vida?
Sim. É uma coisa sempre gratificante. Estive duas vezes no México, e fui ver as terras dos maias - que são mais ricos e mais conhecedores do que os incas - e também dos astecas. Eram civilizações muito prestigiadas na época. Quando fiz o Cristóvão Colombo, e depois fiz uma apresentação em França, defendi que a hipótese de o navegador ter nascido em Portugal não era uma questão de patriotismo. O mérito está na pessoa, seja ela de que nacionalidade for. E o mérito de qualquer pessoa dá mérito à nação a que pertence, e dá mérito à humanidade. Essas figuras não são cativas delas próprias. É isto o fundo humanista, porque tudo tem de ser a favor da humanidade. Se for contra, é mau. Isso é muito importante. É assim que, quando um realizador português recebe um prémio, está a recebê-lo a cinematografia portuguesa, está a recebê-lo Portugal, a Europa, o mundo cinematográfico. Isto não é assim tão individual como parece. Quando se fala muito de Camões, estamos a falar dos portugueses, mas também do mérito dos humanos. As pessoas estão obcecadas com o patriotismo: "Eu é que sou." Não é nada disso. O humanismo é que é fundamental e, às vezes, é esquecido. Mesmo nos partidos políticos, que muitas vezes caem no sectarismo. A natureza humana, em qualquer um dos partidos, é sempre a mesma. Não muda. É nela que está o mal e o bem. Mas concordo com a existência dos partidos, porque a democracia atende a uma certa diversidade no humanismo. É nessa medida que eu aprovo a democracia. O humanismo é que é fundamental.

Dá importância à gastronomia? Qual é o seu prato preferido?
Como sopa, de legumes. Porque um cientista, que fez um exame à nutrição dos americanos que deixaram de comer sopa às refeições, declarou que se eles retomassem a sopa diminuiriam o cancro em mais do que 50 por cento. Também gosto de sopa de peixe...

E gosta de tripas à moda do Porto?
Também gosto. É saudável... Mas não vamos acabar a entrevista a falar de sopa ou de tripas (risos). Não podemos terminar com temas mais espirituais, mais sérios?...

Acredita no futuro da espécie humana?
Não sei se as populações estão a aumentar ou a diminuir. É claro que, com o aborto, com a pílula, com as "camisas de Vénus", com a soma dessas coisas todas, a procriação diminui, a velhice aumenta; a receita dos impostos diminui, porque há menos jovens no trabalho e há mais velhos a ser remunerados. É preciso que a população aumente sempre e que não se faça a desertificação da província, como está a acontecer. Tiram escolas, hospitais e as pessoas desertificam essas cidades. Porque é da província, da cultura da terra, que nós vivemos, e ela está desertificada.

Mas eu referia-me mesmo à sobrevivência do planeta Terra. Acha que ele está em perigo?
Está em perigo, claro. De tal modo que a gente pergunta: onde está a inteligência do homem? Há um progresso, é certo, mas esse progresso encaminha-se para a morte.

Tem medo da morte?
Ninguém tem medo da morte. Ao nascer, não há outra finalidade certa que não seja a morte. Hoje, na minha idade, penso que a morte, quer para um religioso e crente, como eu sou, quer para um leigo, será a única entrada para o absoluto.

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